(Por Maria Helena Brusamolin)
Bicho aqui na nossa região, e acredito que em várias outras, é sinônimo de calouro. E para nós, adolescentes na maravilhosa e romântica década de 1960, não havia nada mais interessante que namorar um estudante vindo de fora, todo cheio de novidades e com outras histórias para contar. Do contrário, teríamos que nos contentar com os rapazes “nativos”, que para nós não ofereciam quaisquer novidades já que convivíamos com eles nos bancos escolares ou éramos amigos de longa data ou mesmo vizinhos de porta.
Os estudantes eram diferentes: a cidade começava a mudar sua fisionomia com a chegada dos novos habitantes que vinham de várias localidades estudar na Escola Técnica de Eletrônica (ETE) ou no Instituto Nacional de Telecomunicações (INATEL). Mudanças radicais de hábitos, pois eles traziam na mala não só a vontade de estudar, mas novas maneiras de se vestir, se comportar, falar com sotaques diferentes. Tudo era novidade.
E eu embarquei nessa quando comecei a namorar um jovem catarinense, natural da cidade de Lajes, não muito alto, mas que tinha o cabelo bem preto, um rosto expressivo e uma educação primorosa. Parecia criado pela avó… Mário, meu irmão, se alvoroçou!
— Que é isso, mãe? A Maria Helena está namorando um estudante? (a palavra estudante soava como um palavrão na boca dos nativos)
— Cuide de você, que dela cuido eu. Eu é que sou a mãe. Vai andando e não amola…
Chegou o tão esperado dia do Baile do Bicho. Vestido pronto, sapato novo, cabelo feito e lá fomos nós para o clube. Mamãe e dona Lourdes Seda dividiram a compra de uma mesa para acompanhar as duas moçoilas, Catarina e eu, cada uma mais feliz e ansiosa que a outra. Catarina também namorava um “bicho”.
Lá pelas tantas, não é que me aparece o Mário, já com várias cervejas na cabeça, querendo briga? Os amigos o instigavam a dar uma surra no suposto pretendente da irmã caçula.
— Mário, como é que você deixa sua irmã namorar estudante? Esse povo só serve para se aproveitar das meninas para depois dar um belo chute no traseiro delas quando se formam.Era o ciúme dos nativos de que falei anteriormente.
Mário, do alto do seu metro e trinta, se eriçou e já começava a arregaçar as mangas da camisa quando mamãe percebeu de longe, pois ela não o perdia de vista, e entrou em cena.
Enquanto eu dançava a valsa com o namorado calouro, mamãe se levantou discretamente, foi lá onde ele estava e, sem dizer uma palavra, pegou-o pelo colarinho e o conduziu porta afora. Os amigos sumiram nesse momento!
— Vá pra casa agora curar essa “carraspana”! E amanhã nós conversamos!
Ele foi saindo quietinho, obediente como era, de bico calado, e tomou o rumo de casa.
No dia seguinte estava ótimo, todo alegre, perguntando se eu havia gostado do baile… Esse era o Mário!

































