Reencontros que vencem o tempo

(Por Salatiel Correia)

Todo ano tenho um compromisso que cumpro com o maior prazer: reencontrar meus colegas de turma. Ao entrar em Pouso Alegre — cidade próspera, próxima da dinâmica Santa Rita do Sapucaí, sede do Vale da Eletrônica brasileiro, a cerca de 200 quilômetros de São Paulo — algo dentro de mim começa a se transformar. Quando meu carro avança pela região da Serra da Mantiqueira, percebo que não se trata apenas de uma viagem geográfica. É, sobretudo, uma travessia no tempo.
Há uma emoção difícil de traduzir quando reencontro aqueles amigos que tocam o fundo da alma. Nesse patamar mais alto do sentimento, volto a ser aquele jovem de 18 anos, ainda imaturo, que encontrou amigos-irmãos vindos de todo o Brasil para cursar engenharia eletrônica no Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel), a primeira escola de engenharia de telecomunicações do país. Foi ali que se formaram, não apenas profissionais, mas vínculos que o tempo não conseguiu dissolver.
Entre tantos rostos, alguns permanecem com especial nitidez: Dimas de Barros Cobra, sempre metódico; Carlos Guerra Godoi, de pensamento claro; Francisco Martins Portelinha, ágil no raciocínio; Edson Luiz Curto, companheiro constante; Eduardo Ferreira de Carvalho, de espírito agregador; e Jorge Ivanovitch, cuja presença luminosa marca qualquer ambiente. Mais do que colegas, tornaram-se referências afetivas de uma vida inteira.
Hoje, ao ver o Inatel irradiando conhecimento para centenas de empresas que compõem esse vibrante polo tecnológico, sinto um orgulho imenso de ter feito parte dessa história. Não se trata apenas de uma instituição de ensino, mas de um verdadeiro núcleo formador de destinos.
Na memória, surgem também os grandes mestres. Muitos deles com formação no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), como Aroldo Borges Diniz, cuja solidez intelectual impressionava. Mas há um nome que se destaca de forma singular: José Antônio Justino Ribeiro. Graduado pelo Inatel e doutor pelo ITA, tornou-se uma das maiores autoridades do país em teoria eletromagnética, com reconhecimento que ultrapassa fronteiras. Representa, em essência, o ideal de excelência cultivado pela instituição.
Mas nem tudo nesses encontros é leve. O tempo, implacável, também se faz presente. A cada ano, chegam notícias de colegas que já não estão entre nós. São ausências que se acumulam de forma silenciosa. Nomes que antes preenchiam salas e conversas agora vivem apenas na lembrança. Cada perda deixa sua marca.
Ainda assim, enquanto Deus me der vida, estarei presente nesses encontros. Eles me fazem bem. Mesmo convivendo com os desafios da doença de Parkinson, procuro manter o pensamento positivo. Aproximo-me dos setenta anos com a consciência mais nítida do valor de cada momento. Enquanto houver forças, seguirei reencontrando meus colegas de turma.
Porque, ao vê-los — cada um com sua trajetória, suas lutas e conquistas — sinto uma emoção genuína: a de estar entre pessoas que quero bem. Pessoas que guardo no fundo do coração. E talvez seja exatamente isso que dá sentido a tudo: perceber que, apesar do tempo, das perdas e das limitações, ainda somos capazes de nos reconhecer — como se aquele jovem de 18 anos nunca tivesse nos deixado por completo.
Salatiel Soares Correia é engenheiro, administrador de empresas e mestre em Energia pela Unicamp. Membro titular do Instituto Histórico e Geográfico do Estado de Goiás, é autor de nove livros nas áreas de energia, economia, política e desenvolvimento regional.

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