Minha primeira Festa de Santa Rita

(Ivon Luiz Pinto)

Meus olhos de menino de cidade pequena se entusiasmaram com a beleza da festa de Santa Rita, em 1953. Tinha chegado em março para os estudos no IMEE, local onde hoje é o INATEL. Embora esta cidade fosse muito maior do que a minha de origem, eu me adaptei rapidamente às modificações culturais, frequentando clubes como o Santarritense que era reservado para a elite, o Centro Operário, para a classe média e a Associação José do Patrocínio, a querida Cravinas, onde aprendi a dançar. Vida normal numa cidade acolhedora. Era meu primeiro ano nesta cidade.
De repente a cidade pareceu crescer, multiplicou o número de pessoas pelas ruas, o ritual cotidiano foi modificado e pairou no ar uma expectativa muito grande. Chegara o mês de Maio e com ele a festa de Santa Rita. Já no primeiro dia da novena os sinos da Igreja anunciavam, ao meio dia, que a festa estava próxima e próximo estava um espetáculo de fé como nunca eu tinha visto. A vida na cidade perdeu a rotina costumeira para ceder lugar ao guarda roupa mais aprimorado, às noites mais buliçosas e às serenatas. E lá ia eu acompanhando serenatas e ensaiando poesias. O frio intenso das ruas escondidas pela neblina não era obstáculo para os pés seresteiros. O vento frio deixava o rosto avermelhado e o nariz dolorido, mas o violão dava calor à voz apaixonada. As janelas adormecidas ouviam cheias de imaginação a voz das serenatas.
Tudo para mim era novidade e me despertou o desejo de em tudo participar.
Nunca havia presenciado uma festa de tais proporções. Acostumado a festas pacatas, vislumbrei ousadia na decoração do andor iluminado de Santa Rita, no povaréu que acompanhava na procissão, a Santa, que tinha até um hino próprio. Era intrigante o modo como o povo falava da festa, esperava a festa e vivia a festa. A festa era o sangue que alimentava o coração do santarritense o ano inteiro.
O dia 22 amanheceu com uma alvorada barulhenta e meu coração teve desejos de enlouquecer.O dia todo as ruas fervilharam de pessoas as mais diferentes, as mais variadas idades, e os mais bonitos trajes. Era maravilhoso para meus olhos provincianos. Leilões com cartuchos coloridos e barracas com nome de povos que eu nem sequer imaginava, e gente. Muita gente. Era minha primeira festa. Foi meu primeiro deslumbramento.
Hoje eu já devia estar acostumado mas, a cada festa, a cada ano, um espetáculo novo se insinua no capricho dos organizadores e, quando parece nada haver para suplantar a anterior, eis que a festa cria roupagens mais ousadas e a beleza parece maior.

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