Contista, cronista e romancista de alto apuro formal, além de crítico literário de estilo leve e sedutor, Jurandir Ferreira dividiu-se entre as atividades de farmacêutico e de intelectual. Nasceu em Poços de Caldas, em 2 de setembro de 1905. Vinte anos depois, em São Paulo, colaborou na imprensa local, mas decidiu voltar para o sul de Minas. Publicou seu primeiro romance, “O céu entre montanhas”, em 1948, e no ano seguinte estreou na poesia com os versos de “Fábulas”. A partir de 1953, passou a assinar o rodapé literário no Diário de Poços de Caldas, em que fazia uma crítica impressionista marcada por tom confessional.
O trecho que transcrevemos abaixo e que cita Santa Rita do Sapucaí foi retirado de um estudo de Huendel Junio Viana e apresentado como dissertação de mestrado na USP. O objetivo do trabalho foi resgatar a figura e a obra do artista por meio de pesquisa de campo, levantamento documental e análise de sua produção literária.
Jurandir Ferreira: o escritor escondido
Com dez anos completos, Jurandir estava fumando, lendo romances, “apaixonando-se por toda menina que conhecesse e, consequentemente, fabricando outros produtos vergonhosos – versos!” Seus pais chegaram à conclusão de que estava se desviando da boa conduta e o encaminharam para o Instituto Moderno de Educação e Ensino, internato de Santa Rita do Sapucaí. Essa escola, dirigida pelo educador João de Camargo, conhecida, por isso, como Colégio do Camargo, o aproximou da literatura como nenhuma outra. O professor de Língua Portuguesa era o então juiz de direito Godofredo Rangel, na época reconhecido pela publicação do conto “O telegrama”. As dificuldades financeiras do professor faziam com que ele se desdobrasse em muitos ofícios, mudando-se de cidade com bastante frequência. Em Santa Rita, desempenhava ainda a função de juiz e contador de uma usina elétrica, o que lhe valeu a alcunha de “Eletricista do Sapucaí”, invenção do amigo Monteiro Lobato. Se por um lado, as aulas eram um complemento salarial, por outro, o gosto pela língua, que o levava à leitura meditativa dos dicionários, o tornara um professor de longa data. Estimulava os alunos não só a conhecer os clássicos, como na composição e publicação dos próprios textos.
No período em que Jurandir foi aluno do colégio, presenciou o nascimento de um pequeno jornal, onde teve oportunidade de publicar o seu primeiro conto, intitulado “Crepúsculo”, hoje desaparecido. O único vestígio dessa narrativa é a história publicada alguns anos depois no jornal A Justiça, intitulada “O crepúsculo”. Trata-se de uma narrativa em torno de um castelo medieval que acaba de perder o seu soberano, prevalecendo a descrição, numa linguagem excessivamente rebuscada e com predomínio de vocabulário erudito.
A poesia
Se o professor Godofredo Rangel aproximava seus alunos da ficção, a poesia, por sua vez, circulava no pátio da escola, impressa em folhas de revista ou mesmo copiada a mão pelos alunos. Foi assim que Jurandir tomou contato com Manuel Bandeira, através de uma revista de propagandas dos cigarros Souza Cruz, que trouxe em uma de suas páginas “A morte de Pan”. Mas foi aos doze anos que o menino se deparou com alguns versos que lhe serviram de iniciação à “verdadeira poesia, aquela onde o nosso ser parece transformar-se na própria ressonância das palavras”. O poema, considerado extraordinário à primeira vista, superior a tudo que ele lera até então, foi “As duas sombras” de Olegário Mariano. Esse poema, trazido no bolso do uniforme do estudante, lhe serviu como “um raiar da aurora para a solidão de tantos meninos em tantos pátios de recreio”:
AS DUAS SOMBRAS
Na encruzilhada silenciosa do Destino,
Quando às estrelas se multiplicaram,
Duas sombras errantes se encontraram.
A primeira falou: — Nasci de um beijo
de luz; sou força, vida, alma, esplendor.
Trago em mim toda a glória do Desejo,
Toda a ânsia do Universo. Eu sou o amor.
O mundo sinto exânime a meus pés.
Sou Delírio, Loucura. E tu, quem és?
— Eu nasci de uma lágrima, sou flama
Do teu incêndio que devora.
Vivo dos olhos tristes de quem ama
Para os olhos nevoentos de quem chora.
Dizem que ao mundo vim para ser boa,
Para dar do meu sangue a quem me queira.
Sou a Saudade, a tua companheira
Que punge, que consola e que perdoa…
Na encruzilhada silenciosa do Destino
As duas sombras comovidas se abraçaram
e de então nunca mais se separaram.
Em julho de 1918, a gripe espanhola esvaziou o colégio e Jurandir foi obrigado a voltar para a casa dos pais. O vírus deixaria 20 milhões de mortos por todo o mundo, 1% da população; no Brasil, em apenas algumas semanas, matou cerca de 35 mil, incluindo o presidente da república, Rodrigues Alves.

































