(Maria José Carvalho Vianna)
Tardinha do mês de maio. Um vento frio substituía o calorzinho fraco e gostoso do meio dia. O sino da igreja estava mudo mas, olhando de baixo para cima, divisávamos um pequeno cortejo fúnebre. Dez a doze pessoas, se tanto. Um funeral da roça. Os passos eram vacilantes, como se a urna fosse pesada demais. O certo é que, com o frio entrante, os colonos passaram a noite ao redor de uma fogueira se aquecendo com aguardente, café e pão.
Alguma coisa chamava a atenção. A cada passada dos carregadores, passadas desencontradas, o caixão abria-se e fechava-se. Não fora trancado, talvez por esquecimento, ou mesmo por indiferença.
O certo é que, ao aproximar-se do local onde é hoje o Mercado Municipal, um e outro transeunte já chamava a atenção pelo fato do caixão estar aberto, mas ninguém conseguia despertar a atenção dos donos do defunto. Seguiam circunspectos. Ninguém falava, compenetrados, mas o caixão continuava: abria-se e fechava-se. Percorreram assim toda a Rua Antônio Paulino, a célebre Rua do Cemitério, até a base do morro.
Ouve-se uma algazarra, uma gritaria. Todo mundo correndo, se protegendo. Três peões e três vacas desembestadas em louca disparada no entroncamento da Antônio Paulino com a Erasmo Cabral. Era comum espetáculo semelhante, uma vez que o Matadouro da cidade era ali mesmo, onde se ergue a linda pracinha da eletrônica e a Câmara Municipal. As reses sempre se assustavam com o movimento da cidade, dos carros e quase adivinhavam seu triste fim. Nessa altura, as mães já acorriam chamando os filhos para colocá-los a salvo dentro dos portões. A primeira vaca resvala bem perto do canal do Córrego do Mosquito, que hoje está canalizado e ajardinado. Não deu outra. Caiu com grande estardalhaço e as outras perderam o rumo e se embrenharam por entre as casas, levando um pânico inusitado aos habitantes. A operação de recaptura das reses levou uma hora. Bem verdade é que já não pensávamos no enterro, quando saíram do bar do Zé Pintinho, os componentes do cortejo. Na hora da confusão tinham abandonado o caixão no pé do morro e correram para um lugar muito seguro: o bar. Não se interessaram pelos outros acontecimentos; preferiram se aquecer um pouco mais. Mais vacilantes ainda… passos trôpegos e, na ânsia de recuperar o tempo perdido, pegaram o caixão, todos do mesmo lado. Podem imaginar? Lá foi a morta para o meio da rua. Novas correrias, com gritarias e tudo mais. Ainda desconfiados, constataram que a morta estava morta mesmo e, com a ajuda de outras pessoas, foi recolhida de volta ao caixão. Não me lembro de ter perguntado o nome da falecida… Já sei. Logo depois o sino da igreja tocou em dobres de funerais e lá de cima da Rua do Cemitério desponta novo cortejo fúnebre. Vem firme, lento e numeroso e a rua fica repleta de curiosos. Novamente somos levados a filosofar, a pensar na vida, e no estranho e desencontrado destino do homem sobre a terra. É isto mesmo. Quem morava na Rua do Cemitério naquela época estava sempre apreensivo com o estouro de alguma rês rebelde quando trazida ao matadouro. Acostumado, também, com a ideia de morte e de presença do cemitério. O susto foi combinar as duas coisas no mesmo dia!

































