A Fé e a simplicidade que fizeram do Irmão Salvador uma lenda em Santa Rita do Sapucaí

(Adjair Franco – Dija)

Há pessoas que atravessam a vida deixando marcas silenciosas, mas profundas. Gente que transforma a fé em presença, amizade e serviço. Assim é a trajetória do Irmão Salvador Ienne, figura querida por gerações de moradores de Santa Rita do Sapucaí, homem de origem singular e coração inteiramente dedicado ao próximo.
Sua história começou de forma quase cinematográfica. Irmão Salvador nasceu a bordo do navio inglês Arlanza, da Mala Real Inglesa (Royal Mail Steam Packet Company), já em águas brasileiras. Carregando desde o nascimento duas culturas e duas nacionalidades, tornou-se um cidadão anglo-brasileiro, unindo em si as raízes europeias e o amor definitivo pelo Brasil, país onde construiria sua missão de vida.
De origem judaico-alemã, trilhou um caminho espiritual profundo até sua conversão ao catolicismo. Formado engenheiro têxtil, ainda muito jovem começou a trabalhar nas Indústrias Matarazzo. Foi naquele ambiente que conheceu e se tornou amigo do príncipe Dom Afonso Caracciolo, amizade que marcaria sua juventude. Apesar da promissora carreira profissional, existia dentro dele um chamado maior.
Esse chamado o levou à Legião de Maria, onde permaneceu durante dez anos. Foi ali que amadureceu sua vocação missionária e descobriu que sua vida estaria voltada ao serviço humano e espiritual. Sua primeira grande experiência missionária aconteceu no Mato Grosso, numa época de enormes desafios sociais e humanos. Trabalhou ao lado de sertanejos e dos indígenas Tapirapé, convivendo de perto com a realidade dura do interior brasileiro.
Naquela missão conheceu um dos grandes nomes da Igreja latino-americana: Pedro Casaldáliga. Entre os dois nasceu uma amizade construída na simplicidade, na luta pelos mais pobres e na vivência do Evangelho. Juntos compartilharam trabalhos missionários e experiências que marcariam profundamente a caminhada de Salvador.
Os anos no Mato Grosso também trouxeram provações. Irmão Salvador contraiu malária e enfrentou graves crises renais, precisando retornar a São Paulo para cuidar da saúde. Mesmo debilitado, nunca abandonou sua missão. Voltou a atuar como engenheiro, enquanto seguia intensamente envolvido com a pastoral da juventude e os trabalhos da Igreja.
Foi nesse período que participou do Cursilho de Cristandade e do treinamento J.L.S., voltado à formação de lideranças cristãs. Aos poucos, aproximou-se da Companhia de Jesus, dos jesuítas, reconhecendo ali o caminho definitivo de sua vocação religiosa. Após um profundo processo de discernimento, ingressou na ordem. Em 1986 foi eleito na Companhia de Jesus, passando por toda a formação jesuítica. No ano seguinte, em 1987, realizou seus votos e incorporou-se oficialmente à ordem.
Durante sua caminhada como jesuíta, atuou no Rio de Janeiro e exerceu funções importantes dentro da província religiosa. Mais tarde, seria transferido para Santa Rita do Sapucaí, cidade que o acolheria definitivamente no coração.
Na terra do Vale da Eletrônica, Irmão Salvador construiu uma relação rara e afetiva com a população. Atuou como professor da Escola Técnica de Eletrônica Francisco Moreira da Costa, tornando-se também agente de pastoral e presença constante junto aos jovens. Mais tarde, após um período em São Paulo na Pastoral Anchietana, retornou a Santa Rita, onde assumiu a coordenação do curso noturno e a função de prefeito do campus da ETE.
Sua atuação ultrapassava os muros da escola. Participou ativamente da Pastoral da Juventude da Arquidiocese de Pouso Alegre, acompanhando gerações de jovens com acolhimento, espiritualidade e amizade sincera. Na zona rural ou urbana, Irmão Salvador sempre cultivou laços humanos profundos. Em Santa Rita, tornou-se daqueles personagens que parecem pertencer à própria alma da cidade.
Mesmo com a saúde fragilizada ao longo dos anos, nunca deixou de demonstrar carinho por Santa Rita do Sapucaí. Transferido primeiro para a Casa Bem-Estar da Companhia de Jesus, em São Paulo, depois para a Casa de Saúde em Fortaleza, e atualmente vivendo em Belo Horizonte, ele continua fazendo questão de retornar para participar da Festa da Padroeira, Festa de Santa Rita de Cássia. E é justamente durante a festa que se revela uma das imagens mais emocionantes de sua trajetória.
Desde os tempos do Monsenhor José, Irmão Salvador mantém viva a tradição de permanecer junto à urna de Santa Rita, abençoando os fiéis com o óleo de Santa Rita. O tempo passou. Vieram Padre Bino, Padre Vonilton, Padre Ramon e, hoje, Padre Omar. Sacerdotes mudaram, gerações passaram, mas o Irmão continua ali, firme em sua missão.
Mesmo enfrentando limitações físicas e precisando vir acompanhado de uma cuidadora, não abre mão de participar da festa. Faz questão de permanecer junto do povo, recebendo cada pessoa com um sorriso, uma palavra amiga e uma bênção carregada de fé e ternura.
Entre brincadeiras e carinho, os amigos brincam que até os cães de Santa Rita do Sapucaí já o reconhecem de longe. E talvez isso diga muito sobre ele. Porque sua presença nunca foi apenas religiosa: ela se tornou humana, cotidiana e afetiva. Um homem que, ao longo das décadas, transformou amizade em apostolado e simplicidade em testemunho de vida.
Irmão Salvador Ienne é mais do que um religioso querido. É uma memória viva da fé, da educação e da história afetiva de Santa Rita do Sapucaí. Uma dessas pessoas raras que passam pelo mundo deixando algo que o tempo não consegue apagar.

SEM COMENTÁRIOS

DEIXE UMA RESPOSTA