Você fala demais!

(Por Ivon Luiz Pinto)

VOCÊ FALA DEMAIS! Ela disse isso sem raiva, sem querer magoar. Disse apenas o que sentia. De repente se fez silencio, a sala ficou muda e as bocas se fecharam. Um olhou para a cara do outro e não sabia o que dizer. Ela, que dissera VOCÊ FALA DEMAIS, ficou constrangida, perdeu a tranquilidade. Eu senti a sua dor. Não a dor por perceber que todos ouviram o que ela tinha falado, mas senti a sua dor interior, aquela que fica presa no profundo do ser, dor que estava gritando por silêncio, com vontade de debruçar sobre a própria dor. Muitas vezes, a gente quer ficar em silêncio para tentar entender. Muitas dores vêm para serem compartilhadas, necessitam de afago, de tapinha nas costas, de palavras de consolo; podemos até dizer que são dores sociais. Mas há dores que querem ficar isoladas, escondidas, com medo de não serem aceitas. É como aquela criança feia, machucada, que tem vergonha de mostrar a cara para os outros. Mas os caminhos da vida ficam mais escuros quando tentamos caminhar sozinhos.
O mistério da dor é tão intrigante que Adélia Prado chegou a afirmar que a dor não tem nada a ver com amargura. Podemos sofrer e ser alegres, cultivar a dor e ter os olhos com o brilho das estrelas, e Adélia ainda afirma que, a cada dia, a dor fica mais rica de humanidade. Que ideia maravilhosa a de que a dor se enche de humanidade. Charles Chaplin, o inimitável Carlitos, gênio do cinema antigo, dizia que para poder rir verdadeiramente devemos estar disponíveis para apanhar a nossa dor e brincar com ela. Brincar com a dor, fazer dela companheira de caminhada, tomá-la pela mão como duas crianças no jardim de Alá, correndo por entre as flores e soltando risos ao sol. A ideia é não levar a sério o que a dor quer nos falar porque ela pode embaralhar os sentimentos e misturar as sensações. A dor pode arrastar e nos levar para longe das pessoas.
A minha amiga não é a única que sofre, pois a dor é comum à humanidade. Todos nós, algum dia, vamos tê-la em companhia. Até Jesus, o homem que não teve culpa, o Santo de Deus, sofreu sua visita. E Ele ao invés de se desesperar usou-a como instrumento de educação e de salvação. Mais de dois mil anos depois, Adélia, mulher que é apenas um dia mais velha do que eu, acha que tudo que acontece é feito pra gente aprender cada vez mais, é pra ensinar a gente a viver.
Tirar lição das coisas que acontecem, como o aluno que aprende com sofrido esforço, deveria ser uma coisa comum na nossa vida e que nos ensinasse a viver. Os ascetas ensinam maneiras para aliviar a dor causada pelos contratempos da vida. Até a História aconselha a usar de experiências anteriores para não mais cometer o mesmo erro, a usar a própria dor para dela tirar lições para o futuro.
Estou aprendendo com a minha dor e com a dor dos outros, pois todos têm a sua dor e o seu sofrimento. Talvez a minha dor me faça falar demais para amenizar as lágrimas que provoca ou esconder as chagas e cicatrizes que ela provocou.
Eu poderia olhar nos olhos de minha amiga e dizer, como Tagore, o poeta indiano: “Quando eu estiver contigo no fim do dia, poderás ver as minhas cicatrizes, e então saberás que eu me feri e também me curei”.

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