No alto da serra, à luz de lamparina, no meio da enchente ou sobre a mesa da sala de jantar transformada em centro cirúrgico improvisado, lá estava ele. Dr. Mário Brandão, nascido em 15 de outubro de 1903, em Santa Rita do Sapucaí, formou-se médico em 1927, na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, e voltou para o interior com uma certeza simples: era preciso cuidar das pessoas, onde quer que elas estivessem.
Começou a clinicar quando médico ainda recebia mais galinha, leitoa e verduras do que dinheiro. Nunca fez fortuna , mas fez algo maior: construiu uma vida de serviço. Atendeu na roça, atravessou estradas ruins, enfrentou enchentes, onças e noites sem dormir. Operou um menino com apendicite numa fazenda isolada, fez parto na Serra da Manoela sob luz de lamparina e, anos depois, recebeu a visita do bebê já homem feito, que atravessou cidades apenas para pagar a dívida de gratidão.
Era o médico de família no sentido mais amplo da palavra. Ficava horas ao lado do paciente, às vezes a noite inteira, lendo um livro enquanto vigiava a melhora de uma criança. Dava o que tinha, inclusive o dinheiro da consulta, a quem precisava comprar remédio. Andava sempre de terno e gravata, distraído a ponto de circular pela cidade com uma gata e três filhotes sobre a capota do jipe, arrancando risos pelo caminho.
Participou da criação do Hospital Antônio Moreira da Costa, ajudou a fundar a Rádio Difusora Santarritense e colaborou com obras sociais. Leitor voraz, homem culto, escreveu contos que ficaram guardados. Em casa, enfrentou também seus próprios dramas, como a longa vigília ao lado do filho em coma, vencido pela persistência, pela fé e pelo amor.
Nos últimos anos, o coração começou a falhar. Brincava que só cuidaria dele depois de viajar à Europa. Não houve tempo. Faleceu em 21 de março de 1970, pouco depois de conquistar a aposentadoria que mal pôde desfrutar.

































