Ricardo Rennó e a saga empreendedora de seu pai, José Palma Rennó

Ricardo nos recebeu para um bate papo em que contou sobre seu pai e sobre a trajetória centenária da estamparia

Quando a Estamparia foi fundada?
A estamparia foi fundada em 1925 com o nome social de Rennó e Kramer. A empresa se originou porque o meu pai, José Palma Rennó, tinha uma fábrica de manteiga nos fundos da propriedade e comprava latas da Metalgráfica Matarazzo, que produzia na cidade de Lavras. Como era a única fornecedora, havia muita imposição por parte deles com os clientes. A empresa praticava o preço que achava conveniente, entregava as quantidades que queria e atrasava muito as entregas. Isso prejudicava as inúmeras fábricas de manteiga que existiam na região. Meu pai estava tendo muito prejuízo com a Matarazzo e, sem nenhuma experiência na fabricação de embalagens metálicas, resolveu de ímpeto, construir a sua própria fábrica de latas.

O empreendedor José Palma Rennó.

Porque havia tantas empresas de fabricação de manteiga?
Havia muitas fábricas de manteiga porque estávamos em uma zona leiteira, já na década de 1920, e não havia estradas para escoar esta produção a tempo e hora aos grandes consumidores de São Paulo, Campinas e outros. Como agravante, a energia elétrica era muito fraca para que fossem instalados tanques de refrigeração, aguardando transporte conveniente para os grandes centros. A solução foi partir para os subprodutos e a maior parte deles eram manteiga e queijo.

Como seu pai conseguiu montar uma fábrica?
Ele foi para São Paulo, na Barão de Itapetininga, a rua das máquinas da capital paulista, e foi comprando uma a uma. Ele comprou tudo o que precisava para iniciar a fabricação até montar a primeira fábrica de latas, ao lado da fábrica de manteiga. Enquanto comercializava as várias marcas de manteiga que ele tinha, também começou a comercializar latas e as empresas concorrentes tomaram conhecimento do negócio e também começaram a pedir que ele fabricasse para elas. Começou a fornecer para os concorrentes e, desta forma, resolveu um problema que era comum a vários fabricantes de manteiga e outros produtos.
Com o passar do tempo, ele percebeu que era mais lucrativo produzir latas do que comercializar manteiga e resolveu desativar a fábrica do laticínio para se concentrar somente nas embalagens metálicas. Ele foi evoluindo, crescendo cada vez mais e teve vários sócios. Começou com a Rennó & Kramer, passou para Rennó & Bicalho, depois para Rennó e Bernardi, até se tornar Rennó & Filhos. Em 1955, ele fundou a Estamparia Santaritense SA. Em 1966, ele fez a doação das ações dele para os dois filhos, Ricardo e Roberto, e assim foi até a morte dele. Eu e meu irmão tivemos sociedade até 1982.
O Roberto trabalhou aqui desde a década de 1940. Já o meu cunhado, Huet Azevedo Moreira, casado com a minha irmã mais velha, Maria Ignez, atuou desde a década de 1950 até meados dos anos 1960. Permaneceu quatorze anos na empresa.
Até a morte do meu pai, em maio de 1973, ele sempre foi o diretor-presidente. O meu irmão era o diretor superintendente e eu era o diretor comercial. Mas o meu pai, o Roberto e o Huet foram o esteio dessa empresa por muitos anos e merecem o grande destaque pelo projeto que empreenderam. Quando assumi, o negócio já estava consolidado.
Ao assumir, investi na empresa, ampliei as instalações, modernizei muita coisa e aumentei a capacidade de produção. Eu só aperfeiçoei o que recebi deles.

A fábrica de manteiga.

O senhor José Palma Rennó enfrentou dificuldades neste ramo de atividade?
Ele teve alguns problemas no decorrer de sua trajetória, principalmente durante a II Guerra Mundial, entre 1939 e 1945. As nossas folhas de flandres eram importadas da Alemanha e, com o início da guerra, o fornecimento foi interrompido já que todo o aço era destinado à indústria bélica. A partir do início da guerra, ainda conseguiram alguma importação dos Estados Unidos mas, com a ampliação do conflito para o restante do mundo, tiveram que fechar a fábrica. Foi um período em que não havia nenhuma possibilidade de se conseguir aço para outra atividade que não fosse para a bélica. Não havia condições de continuar porque a nossa principal matéria-prima estava com as vendas praticamente suspensas. Como ainda não havia a CSN (Companhia Siderúrgica Nacional), tudo era importado, o que inviabilizou a empresa. Meu pai teve muitos dissabores com o fechamento da Estamparia. Ele teve que mandar todo mundo embora, viu seu sonho ser interrompido e ele ficou muito abalado com tudo aquilo.

O primeiro prédio da estamparia.

E como ele manteve as economias em alta?
Ele também sempre foi um homem do café. Produziu a sua primeira lavoura, ainda em 1918, bem antes da estamparia. Sua primeira fazenda de café, que também produzia algum gado, foi no município de Ouro Fino. Como não havia adubos químicos, ele comprou outra fazenda em Monte Sião e trazia o esterco dos bovinos para adubar os cafezais da outra fazenda. Ele tornou-se muito amigo do administrador da fazenda de Ouro Fino, Major Damaso da Motta Paes, e o homem sempre comentava com o meu pai: “O senhor precisa conhecer o Paraná! Lá é que é a terra do café!” Insistiu tanto que o meu pai disse a ele que não adiantava ir para lá sem dinheiro. Em 1924, eles foram para o Paraná e acabaram adquirindo uma fazenda muito boa que produz até hoje e que pertence à nossa família. Fica em Santo Antônio da Platina. É uma propriedade muito grande, de duzentos e quarenta e tantos alqueires, e meu pai plantou muito café por lá. Era uma terra extremamente fértil que, até hoje, costumam chamar de “terra roxa”. É considerada a segunda terra mais fértil do mundo. A primeira é a terra negra da Ucrânia.
Em 1932, meu pai estava no Paraná administrando a fazenda e orientando o administrador, quando um amigo chegou contando que havia estourado a revolução, em São Paulo. Se ele não fosse embora imediatamente, não teria como retornar a Minas Gerais. Ele fez as malas e saiu às pressas, pegou um trem e foi até a capital paulista. Naquele momento, as tropas já estavam ocupando todos os trens e ele conseguiu, a duras penas, mesmo sem o alvará da polícia, embarcar no último trem com destino a Minas. Dali em diante, o transporte foi completamente interrompido porque os paulistas minaram as pontes. Por sorte chegou a tempo porque a minha mãe estava grávida e prestes a dar à luz.

O seu pai era um homem muito ousado, não é?!

Meu pai era um grande empreendedor. Ele foi ampliando seus negócios, comprou outra fazenda em Santo Antônio da Platina e destinou essa nova propriedade à criação de gado. Depois de vários anos, viria a adquirir uma terceira fazenda no município de Tomazina. Já auxiliado pelo meu irmão, Roberto, ele formou a propriedade toda com dois milhões de pés de pinheiros.
Ele tinha negócios muito variados. Um fato que aconteceu quando ele separou a sociedade com o senhor Miguel Bernardi, foi que ele continuou atuando com seu filho, o Roberto, e precisava obter conhecimentos na área de fotolitos, litografia e outras técnicas. Ele mandou meu irmão para São Paulo e o Roberto pediu emprego na Matarazzo em busca das informações que precisavam. Meu irmão saiu daqui, solteiro ainda, foi para São Paulo, passou a viver na mesma pensão que os empregados, comeu nos mesmos botequins, frequentou os mesmos ambientes para não levantar suspeita. No final de alguns meses, ele já tinha obtido todas as informações que precisavam e o meu pai disse a ele que pedisse demissão e retornasse a Santa Rita do Sapucaí. Foi assim que a empresa absorveu as técnicas de fotolitos. Meu irmão foi um homem muito trabalhador. Começou na empresa na década de 1940 e continuou até a década de 1980, quando assumi sozinho a Estamparia e ele ficou com as fazendas do norte do Paraná.

Como o seu pai conseguia gerir tantos empreendimentos?

O meu pai sempre teve bons auxiliares. No Paraná, esse Major Damaso era seu braço direito e administrou as terras de 1924 até o seu falecimento, em 1957. Depois, o meu irmão assumiu no Paraná para ajudar o meu pai, que já estava em idade avançada, e teve o mérito de ir para lá, aprender sobre o cultivo de café e permanecer por muito tempo. Cada fazenda tinha um bom administrador. As fazendas de Ouro Fino e de Monte Sião passaram para as minhas irmãs, em 1966. Meu pai também tinha muitos investimentos em economias diferentes. Tinha muitos imóveis em São Paulo. Quando faleceu, era dono de dois edifícios na capital paulista e um prédio industrial que era alugado para o governo do Estado de São Paulo. Meu pai sempre foi muito atirado. Junto com outros sócios, um deles, membro da família Faria de Pouso Alegre, tinha também um negócio que explorava um subproduto que era extraído da fabricação da manteiga, usado na indústria química. Eles vendiam essa substância para São Paulo, para ser usada nas indústrias que existiam lá.

Como foi a fusão da empresa do seu pai com uma grande empresa americana?

Quando os sócios dele souberam que viria uma indústria americana para fabricar a mesma coisa que eles, ficaram apavorados. Eles comentaram que, se isso se concretizasse, iriam à falência. Meu pai então, disse que, em vez de brigar com os americanos, eles deveriam ir ao encontro deles. Em 1948, ele, o senhor Miguel Bernardi e o amigo de Pouso Alegre foram aos Estados Unidos, sem falar uma palavra de inglês. Eles tinham um amigo com um filho que estudava em Nova York e foi esse rapaz quem deu suporte. Aproveitaram a viagem e compraram mais máquinas para a Estamparia, folhas de flandres e diversos insumos para a fábrica. Além disso, conseguiram negociar com os futuros concorrentes e criaram uma empresa com 50% de capital estrangeiro e 50% de capital nacional. A empresa se chamava Borden Chemical Inc e, quando formou a sociedade com meu pai e seus amigos, fundaram a Alba que, inclusive, passou a fabricar aquela conhecida cola Cascola. Mas o forte dessa empresa era a fabricação do Metanol e do Etanol, com finalidades petrolíferas. Umas das duas unidades fabris era vizinha da fábrica da Petrobrás em Cubatão e, a outra, da fábrica de Curitiba. Por vários anos, o meu pai foi o maior acionista brasileiro dessa corporação e desempenhou as suas funções com muita capacidade.
Com o passar dos anos, meu pai vendeu os imóveis que tinha em Belo Horizonte, dissolveu a sociedade de outra fábrica que tinha por lá e voltou a morar em Santa Rita. Com as vendas de tudo o que ele tinha por lá, comprou muitas ações na Bolsa de São Paulo. Os preços estavam muito bons e, com os incentivos dados pelo governo, sua carteira explodiu. Tinha ações da Vale do Rio Doce, de vários bancos e de muitas outras empresas.

Roberto Rennó e sua esposa, Maria Thereza Rennó.

Quais eram os clientes mais importantes que vocês tinham?
Um cliente muito bom era de Varginha, chamado Salgado & Irmãos. Outro, era a Gonçalves Salles Laticínios, que produzia a Manteiga Aviação. Também atendíamos à Cica, Peixe e outros. Também vendíamos para Ribeirão Preto, para o triângulo mineiro, para a fábrica de doces de Poços de Caldas, de São Lourenço e para muitas outras empresas.

Como foi a história da mudança do rótulo da manteiga Aviação?
Chegou uma época em que a direção da empresa que fabricava a Aviação decidiu mudar o rótulo. Queriam substituir o antigo avião por um Concorde. Eles pediram para nós trocarmos o avião, nós mandamos desenhar um novo modelo e começamos a fabricar. Em pouco tempo, veio a ordem da empresa: deveríamos retornar ao antigo modelo. Nós perguntamos o motivo e eles disseram que era porque as vendas tinham caído com a alteração que fizeram na aeronave.

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