Documentos resgatam a trajetória de um dos pioneiros do comércio santa-ritense

Poucos nomes estiveram tão presentes na história comercial de Santa Rita do Sapucaí, nas primeiras décadas do século XX, quanto o de Manoel Pereira Bernardes. Português, nasceu em 27 de agosto de 1886, em Silvalde, então pertencente ao Concelho da Feira (atual Santa Maria da Feira), distrito de Aveiro. Chegou ao Brasil ainda jovem, iniciou a vida como mascate, fixou residência no município e construiu uma trajetória que hoje pode ser reconstituída por meio de registros oficiais, publicações da imprensa da época e outros documentos históricos.
O processo de naturalização, preservado pelo Arquivo Nacional, revela que Manoel Bernardes já vivia em Santa Rita do Sapucaí havia mais de duas décadas quando requereu a cidadania brasileira, em 1941. Na documentação, aparece identificado como comerciante, proprietário de imóveis e morador respeitado pela comunidade.

Já o dossiê de tombamento de uma antiga residência da família, elaborado pela Diretoria de Patrimônio Cultural de Belo Horizonte, informa que ele desembarcou no Brasil aos 17 anos. Depois de se estabelecer em Santa Rita do Sapucaí, fundou a Casa Bernardes, estabelecimento que se tornaria um dos mais tradicionais do comércio regional.

O sucesso alcançado refletia-se na própria sede da empresa. Localizada na tradicional Rua da Ponte, nº 4, a Casa Bernardes tornou-se referência na venda de tecidos, fazendas e armarinhos, atendendo moradores da cidade e da zona rural em uma época de intensa expansão comercial do município. Instalado em um imponente edifício de arquitetura eclética, com forte influência do ecletismo acadêmico e elementos neoclássicos, o estabelecimento chamava a atenção tanto pela imponência da fachada quanto pelo refinamento de seus detalhes arquitetônicos.

Entre os registros consultados está a escritura de aquisição do imóvel, datada de 9 de março de 1917, quando a propriedade foi comprada de Policarpo Marques de Azevedo. Conservado até os dias atuais, o edifício permanece como um dos mais expressivos exemplares desse período de crescimento urbano e como testemunho da importância econômica alcançada pelo comerciante português, um dos muitos imigrantes que escolheram a rua às margens do rio Sapucaí para construir a própria história. Até a chegada da ferrovia, a região permanecia pouco ocupada por ser sujeita a alagamentos, mas a implantação da estrada de ferro transformou a área em um dos principais eixos de desenvolvimento da cidade.

A relevância da Casa Bernardes também aparece registrada no jornal Correio do Sul, em edição de 12 de outubro de 1958. Ao recordar a Santa Rita de fevereiro de 1913, o cronista Edmundo do Prado Moreira descreve o caminho percorrido entre a antiga Estação Afonso Pena e o centro da cidade, citando a “Caza Bernardes” (grafada com “z”) entre os estabelecimentos que compunham a paisagem urbana da época. Entretanto, a documentação consultada pela reportagem indica que houve um equívoco de memória do cronista, já que Manoel Bernardes somente se instalou naquele prédio em 19 de outubro de 1916.
A influência da família ultrapassou a atividade comercial. Entre os documentos pesquisados está o registro de que sua esposa, Rita Yolanda Valim Bernardes, foi posteriormente reconhecida entre as cem mulheres mais influentes da história de Santa Rita do Sapucaí. O casal teve como primogênito Manoel Antônio Bernardes, que estudou em Belo Horizonte, evidenciando os vínculos mantidos pela família tanto com o Sul de Minas quanto com a capital do Estado.

Os documentos consultados também ajudam a compreender o prestígio conquistado por Manoel Bernardes na comunidade. Durante o processo de naturalização, as testemunhas o descreveram como um comerciante “honesto”, “muito trabalhador” e “bom chefe de família”, afirmando que jamais demonstrara comportamento contrário às instituições brasileiras.

Sua atuação, no entanto, não se restringiu aos negócios. Participou ativamente da vida comunitária como integrante da Maçonaria, exercendo o cargo de venerável entre 1932 e 1933, período em que a instituição reunia parte das principais lideranças políticas, empresariais e intelectuais do município. Também foi membro da Sociedade São Vicente de Paula e um dos fundadores do Bloco dos Democráticos, criado em 1935, quando ocupou a vice-presidência da agremiação.

Como testemunho desse legado, permanece no jardim do Museu Histórico Delfim Moreira um banco de granito instalado pela família Bernardes em homenagem ao ex-presidente Delfim Moreira, que viveu em Santa Rita do Sapucaí.

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