(Adjair Franco – Dija)
José Carlos Dias, carinhosamente conhecido como Carlinho Garçom, nasceu em Piranguinho, no dia 29 de dezembro de 1949. Aos 76 anos, é casado com dona Luzia Maria Dias de Barros e pai de Alexandre Marcelo. Sua trajetória, marcada pelo trabalho, pela simplicidade e pelo bom humor, confunde-se com muitas das histórias guardadas na memória local.
Carlinho deixou Piranguinho com a família quando tinha apenas sete anos. Ainda menino, conheceu cedo o peso das responsabilidades. Catou esterco, engraxou sapatos e realizou diferentes serviços para ajudar no sustento de casa. Também trabalhou como charreteiro. Foram tempos difíceis, mas fundamentais para formar o homem dedicado e solidário que se tornaria. Ao atingir a maioridade, apresentou-se para o alistamento militar em Pouso Alegre. Depois de deixar o Exército, veio para Santa Rita do Sapucaí, recebeu um convite de emprego e foi para São José dos Campos. Mais tarde, retornou a Santa Rita, onde seu irmão Raul trabalhava como garçom no restaurante do saudoso Marcos Peão. Extrovertido, atento e dono de uma simpatia natural, Carlinho logo encontrou na profissão de garçom mais do que uma forma de sobrevivência. Foi atrás das mesas, entre pratos, conversas e encontros, que ele construiu amizades e passou a fazer parte da vida de muitas pessoas. Naquela época, havia sido inaugurado o Mavesa, um grande restaurante localizado às margens da Rodovia Fernão Dias, em Pouso Alegre. Carlinho recebeu um convite para trabalhar como subgerente e aceitou a oportunidade. Durante o dia, trabalhava por lá e, à noite, retornava a Santa Rita para atender no restaurante do Peão. Era uma rotina pesada, vencida com disposição e coragem. Com o trabalho constante e as muitas gorjetas que recebia, conseguiu melhorar sua situação financeira.
Foi nesse período que nasceu uma das histórias mais curiosas de sua vida. Um casal que frequentava o restaurante do Peão, encantado com o jeito alegre de Carlinho, perguntou-lhe: “Carlinho, você tem um irmão gêmeo?” Brincalhão, ele respondeu: “Que eu saiba, não!” O casal então contou que, no restaurante Mavesa havia um garçom idêntico a ele. Mal sabiam que se tratava da mesma pessoa. Nessa época, Carlinho tornou-se amigo de um frentista que trabalhava no posto do Mavesa. Foi esse amigo quem conseguiu uma carona para que ele pudesse realizar o trajeto. Mais tarde, passou a trabalhar no POPS, onde permaneceu durante 14 anos. Ali viveu tantas situações que, como ele próprio costuma dizer, algumas parecem difíceis de acreditar. Entre essas lembranças está uma que revela sua generosidade. Depois de deixar o trabalho, já de madrugada e tomado pelo cansaço, Carlinho costumava acompanhar os colegas garçons aos velórios. Quando a pessoa falecida pertencia a uma família pobre, faziam uma vaquinha e levavam pão com mortadela para aqueles que permaneceriam durante toda a noite. Era um gesto simples, mas cheio de humanidade, desses que aliviam silenciosamente a dor de quem precisa.
Carlinho também se recorda de um grande almoço realizado no POPS, do qual participaram mais de vinte médicos. A mesa era farta, com leitão, frango assado, pernil e muitas outras variedades. Depois da refeição, porém, uma pessoa sofreu uma parada cardíaca e faleceu. Como havia sobrado muita comida, Carlinho a recolheu e levou para a casa do falecido, cujo velório acontecia na Vila. Todos puderam se alimentar e, com o humor que sempre o acompanhou, ele resume o episódio dizendo que “Só o falecido não comeu”.
Ao todo, Carlinho dedicou 25 anos de sua vida à profissão de garçom. Mais tarde, realizou o sonho de montar o próprio restaurante em sua casa, ao pé do Morro do Gerônimo. O estabelecimento recebeu o nome de Grafitte e permaneceu em funcionamento por 15 anos.
Com o passar dos anos, Carlinho tornou-se uma figura tão conhecida que, segundo os relatos, até os cachorros da cidade o acompanhavam. Por trás da aparência muitas vezes séria, sempre existiu um homem alegre pronto para arrancar um sorriso de quem estivesse por perto.
Carlinho, Tião e Raul formavam o conhecido trio de irmãos garçons de nossa cidade. Durante muitos anos, estiveram presentes em festas, encontros e momentos importantes, contribuindo com dedicação para a vida social da comunidade. Mais do que servir mesas, eles ajudaram a servir histórias, amizades e lembranças.
A trajetória de Carlinho Garçom foi construída entre o trabalho duro e a alegria, entre as dificuldades da infância e o reconhecimento conquistado ao longo da vida. Em cada restaurante pelo qual passou, deixou um pouco de sua presença; em cada pessoa que atendeu, uma lembrança; e, na história de Santa Rita do Sapucaí, um nome que permanece ligado à generosidade, ao companheirismo e à arte de transformar o cotidiano em boas histórias.

































