A venda de cachaça em Santa Rita do Sapucaí, em 1836

Documento preservado pelo Arquivo Público Mineiro revela a estrutura econômica de Santa Rita em 1836 e registra os nomes de homens e mulheres ligados ao comércio local

Em agosto de 1836, Santa Rita era um pequeno arraial e curato pertencente ao município de Campanha. Embora ainda não tivesse autonomia administrativa, a localidade apresentava uma economia ativa, com engenhos de aguardente, lojas de fazenda seca e casas comerciais distribuídas pela povoação, pelas estradas e pelas propriedades rurais.

Ordem da Presidência da Província

O documento foi elaborado em resposta a uma determinação da Presidência da Província de Minas Gerais, expedida em 16 de junho de 1836. Os juízes de paz deveriam relacionar os engenhos de aguardente, a força utilizada em seu funcionamento, as casas que vendiam a bebida, as lojas de fazenda seca e os estabelecimentos que comercializavam bebidas trazidas de fora da Província.

O levantamento tinha finalidade fiscal. Os engenhos movidos por água ou outros mecanismos pagavam 40 mil-réis, enquanto os movidos por animais eram tributados em 20 mil-réis. Para as casas comerciais, o imposto variava conforme a localização: 8 mil-réis nas cidades e vilas, 6 mil-réis nas povoações com mais de quarenta fogos e 4 mil-réis nas povoações menores e nas estradas.

O juiz de paz Francisco Gonçalves Teixeira informou que Santa Rita possuía “mais de quarenta fogos”. No século XIX, “fogo” correspondia a uma unidade doméstica, que poderia reunir familiares, agregados, trabalhadores livres e pessoas escravizadas sob uma mesma chefia.

O documento não apresenta o número exato de domicílios nem permite calcular com segurança a população local. Apenas situa Santa Rita na categoria fiscal das povoações com mais de quarenta unidades domésticas.

Francisco Gonçalves Teixeira, autoridade eleita com funções administrativas, policiais, judiciais e conciliatórias, enviou três relações: a dos engenhos de aguardente, a das lojas de fazenda seca e bebidas trazidas de fora da Província e a das casas que vendiam aguardente.

Foram registrados três engenhos de aguardente no documento:

  • Sargento-mor José Joaquim Leite Ferreira de Melo, na Fazenda Turvo;
  • Francisco Tomás Vilela, na Fazenda Vintém;
  • Francisco Lemes de Oliveira, na Fazenda Mata-Cachorro.

Todos eram movidos por bois e, por isso, estavam sujeitos ao imposto de 20 mil-réis. O registro também comprova que as denominações Turvo, Vintém e Mata-Cachorro já eram utilizadas.

Fazenda seca e bebidas trazidas de fora

A segunda relação apresenta sete responsáveis por esses estabelecimentos:

  • Brás Fernandes Ribas;
  • Feliciano José Pereira;
  • Bernardo José de Santana;
  • João Batista;
  • João Manuel Fernandes;
  • Marcos Martins;
  • João Mariano de Oliveira.

Comércios de aguardente

No arraial foram registrados:

  • Antônio de Moura;
  • Felisberto Lopes;
  • Isabel Maria;
  • Giralda Maria;
  • Salvador Machado;
  • Bárbara Maria;
  • Antônio José de Carvalho;
  • Luís Moreira Rodrigues;
  • João Lopes de Figueiredo;
  • Maria Martins;
  • Antônio Raposo;
  • João Mariano;
  • Joaquim Pedroso;
  • Joana Nunes;
  • Antônio Manuel da Fonseca;
  • Francisco das Chagas;
  • Tomé Vicente;
  • Brás Fernandes Ribas;
  • João Manuel Fernandes.
    Nas estradas aparecem:
  • Antônio José de Morais;
  • Inácio Lopes;
  • Feliciano Nogueira;
  • Alexandre Pinto da Costa;
  • João Antônio de Lemos;
  • Rosa Franca.
  • Antônio Ribeiro da Silva aparece associado a uma casa situada em uma fazenda.

Ao todo, foram registrados 26 responsáveis pela venda de aguardente. Isso não significa, porém, que Santa Rita tivesse 26 bares ou tabernas nos moldes atuais. Muitas vendas funcionavam nas próprias residências e ofereciam aguardente ao lado de alimentos e outros artigos cotidianos.

As mulheres na economia

Entre os responsáveis pelas casas que vendiam aguardente, aparecem pelo menos seis mulheres:

  • Isabel Maria;
  • Giralda Maria;
  • Bárbara Maria;
  • Maria Martins;
  • Joana Nunes;
  • Rosa Franca

A presença desses nomes é uma das maiores riquezas do documento. Em uma época na qual os registros oficiais privilegiavam os homens, essas mulheres foram identificadas individualmente como responsáveis por atividades comerciais fiscalizadas pelo governo provincial. Seus nomes comprovam a participação feminina na economia santa-ritense de 1836.

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