ETE FMC integra projeto para levar energia elétrica a comunidades remotas da Amazônia

Alexandre Loures Barbosa conta como a Companhia de Jesus alia tecnologia, educação e
compromisso social em comunidades indígenas e ribeirinhas do Amazonas

Em entrevista, Alexandre Loures Barbosa, diretor-geral da Escola Técnica de Eletrônica Francisco Moreira da Costa (ETE FMC), relatou a participação da instituição em um projeto da Companhia de Jesus que alia energia renovável, formação, sustentabilidade e compromisso social em comunidades indígenas e ribeirinhas do Amazonas.

Como surgiu o projeto do qual a ETE FMC participa na Amazônia?

O projeto está relacionado ao trabalho desenvolvido pela Companhia de Jesus na Amazônia, região considerada uma de suas prioridades apostólicas. A presença jesuíta no local envolve diferentes iniciativas voltadas à ecologia integral, aos direitos humanos, à justiça socioambiental e à formação humana e espiritual.

Entre essas iniciativas está a Equipe Itinerante da Amazônia, que realiza um trabalho missionário junto a comunidades indígenas, ribeirinhas e populações tradicionais localizadas em regiões de difícil acesso. Trata-se de uma experiência missionária, intercongregacional e itinerante que começou a atuar em 1998. Ela nasceu a partir da Companhia de Jesus e reúne religiosos, religiosas, leigos, missionários e organizações parceiras, com a missão de escutar, acompanhar e caminhar junto com os povos amazônicos, fortalecer comunidades e redes locais. É nesse contexto que se desenvolve a iniciativa da qual a ETE FMC teve a oportunidade de participar.

Além da Equipe Itinerante, quais outros trabalhos da Companhia de Jesus estão presentes na região?
A rede jesuíta desenvolve, há bastante tempo, diferentes trabalhos na Amazônia. A presença jesuíta na região é articulada pela PAAM — Preferência Apostólica Amazônia. Entre as iniciativas e articulações relacionadas a esse trabalho estão o SARES, a Missão Indigenista Jesuíta, o Centro MAGIS Amazônia, a REPAM, a CEAMA e a Equipe Itinerante. Essas iniciativas se somam ao trabalho de outras organizações que buscam acompanhar as populações da região e contribuir para a promoção da justiça social, dos direitos humanos e da proteção ambiental.

O que é o Projeto Flora e como ele se relaciona com essa iniciativa?

O FLORA é um projeto espanhol e uma iniciativa colaborativa voltada à formação, ao desenvolvimento sustentável e à promoção dos direitos humanos e territoriais das comunidades indígenas e ribeirinhas Sateré-Mawé, situadas na região do Alto Urupadi, no estado do Amazonas.

O projeto busca oferecer soluções integradas que conciliem o progresso tecnológico com a preservação cultural e ambiental. Seu trabalho procura beneficiar comunidades que, historicamente, enfrentam o isolamento geográfico e a exclusão socioeconômica.

Dentro deste contexto, a ETE foi convidada, em 2024, a participar do projeto da Equipe Itinerante e a colaborar com o Projeto FLORA na implantação de sistemas fotovoltaicos e na capacitação das comunidades.

Qual é exatamente o papel desempenhado pela ETE FMC?

A ETE participa do planejamento, da implantação e da manutenção de usinas fotovoltaicas nas comunidades indígenas e ribeirinhas. Além da parte técnica, também contribuímos para a capacitação dos moradores, para que eles possam compreender o funcionamento, a operação e a conservação dos sistemas.

Nosso objetivo é contribuir para a criação de uma Escola-Oficina de Energias Renováveis, formando moradores locais para a construção, a operação e a manutenção desses sistemas. Isso é muito importante porque não basta instalar os equipamentos. É necessário compartilhar conhecimento para que as comunidades desenvolvam autonomia e participem da conservação das usinas.

De que maneira a experiência na Amazônia será incorporada à formação dos estudantes da ETE FMC?

A experiência de campo passa a integrar uma proposta pedagógica da ETE FMC e da Rede Jesuíta de Educação (RJE), voltada à formação integral dos estudantes. A iniciativa articula o estudo da Amazônia, dos povos Sateré-Mawé, das comunidades ribeirinhas, da sustentabilidade, das energias renováveis, da diversidade cultural e dos desafios socioambientais contemporâneos. A proposta busca evitar uma visão simplificada ou folclorizada da Amazônia e dos povos originários, estimulando os estudantes a compreender a região em suas dimensões humana, cultural, ambiental, política, tecnológica e econômica. Temas como território, saúde, mobilidade, produção de alimentos, energia, água, logística, comunicação, soberania econômica e organização comunitária serão trabalhados de forma interdisciplinar. Para uma escola técnica, a experiência mostra que a tecnologia não pode ser separada das pessoas. Um painel fotovoltaico, estudado a partir de conceitos como tensão, corrente, potência, eficiência, baterias e inversores, pode significar água chegando à caixa-d’água de uma comunidade. Uma bateria pode representar mais horas de iluminação, enquanto um sistema fotovoltaico pode permitir que uma família conserve o peixe pescado para alimentar os filhos posteriormente.

É nesse encontro entre conhecimento técnico e realidade humana que está uma das maiores forças educativas do projeto, que integra técnica, humanidades, sustentabilidade, cultura, investigação científica, pastoral e consciência ecológica. A iniciativa também provoca reflexões sobre o desenvolvimento que desejamos, o uso da tecnologia sem a destruição do meio ambiente, a contribuição dos conhecimentos tradicionais, a produção de energia com respeito aos territórios e às culturas e a responsabilidade das instituições de ensino diante dos desafios sociais e ambientais.

Ao levar conhecimento técnico às comunidades e trazer de volta histórias, experiências e saberes construídos por povos que convivem com a floresta há gerações, a ETE FMC e a RJE estabelecem uma via de mão dupla: a escola leva energia para a Amazônia, e a Amazônia devolve conhecimento para a escola. Essa troca mostra que educação, tecnologia e compromisso social alcançam plenamente seu sentido quando transformam realidades e a nossa maneira de enxergar o mundo.

Quem são os Sateré-Mawé, um dos povos atendidos pelo projeto?

Os Sateré-Mawé são um povo indígena que vive principalmente no estado do Amazonas, especialmente na região da Terra Indígena Andirá-Marau. Segundo as informações reunidas no projeto, são aproximadamente 13 mil pessoas distribuídas em cerca de cem comunidades, em uma área de aproximadamente 780 mil hectares. Eles mantêm uma relação histórica e profunda com o território, os rios e a floresta. Suas práticas tradicionais incluem a caça, a pesca e a agricultura. A economia está baseada, principalmente, na agricultura de subsistência, com destaque para o cultivo da mandioca, do milho e, sobretudo, do guaraná. É uma população que desenvolve uma agricultura sustentável, respeitando os ciclos naturais e evitando o uso de agrotóxicos.

Qual é a importância do guaraná para esse povo?

O guaraná ocupa um lugar muito especial na cultura Sateré-Mawé. Ele não representa apenas uma atividade econômica. Está ligado à história, à identidade, à espiritualidade e aos conhecimentos tradicionais desse povo. O conhecimento relacionado ao cultivo e ao processamento do guaraná atravessa gerações. A produção de guaraná orgânico, inclusive para mercados internacionais, é um exemplo de como essas comunidades conseguem combinar tradição e inovação para gerar renda. Trata-se de um produto muito rico e valorizado. No entanto, na época da colheita, grandes empresas chegam à região e compram a produção por valores muito baixos, revendendo o produto a preços muito mais elevados.

Como a energia pode contribuir para mudar essa relação econômica?

Com a energia elétrica, as comunidades passam a ter condições de beneficiar e armazenar o próprio guaraná. Isso pode permitir que vendam a produção diretamente, por um preço mais justo, a compradores que reconheçam a qualidade do produto, reduzindo a dependência dos intermediários. A energia não representa somente iluminação ou conforto. Ela pode fortalecer a autonomia, a soberania econômica e a permanência dos povos amazônicos em seus territórios. Um dos objetivos é justamente oferecer condições para que essas populações permaneçam em suas comunidades, com dignidade e possibilidades de desenvolvimento. Quando não encontram apoio, algumas pessoas acabam querendo deixar seus territórios e ir para as cidades, onde podem enfrentar fome, discriminação e dificuldades de adaptação.

Como era o acesso à energia nas comunidades antes da implantação dos sistemas fotovoltaicos?
Em várias comunidades, a energia elétrica contínua não existia. A alternativa era utilizar geradores movidos a diesel. Esses geradores consomem aproximadamente três litros de diesel por hora. De acordo com o depoimento, considerando o valor do combustível na região, isso representa um custo de aproximadamente R$ 30 por hora de funcionamento. Além do custo elevado, há toda a dificuldade logística para transportar o combustível pelos rios. Por isso, em alguns locais, os geradores funcionavam somente duas horas por dia.

Para que eram utilizadas essas poucas horas de energia?

Em muitas situações, praticamente toda a energia disponível era destinada a uma necessidade básica: retirar água dos poços artesianos e bombeá-la até as caixas-d’água que abastecem a população. O gerador precisava funcionar por pelo menos duas horas para garantir o fornecimento de água potável e possibilitar o preparo dos alimentos. Fora desse período, as comunidades não contavam com outra fonte de energia. Isso mostra que, nesses locais, a energia elétrica está diretamente relacionada à sobrevivência e ao atendimento de necessidades essenciais.

O que mudou com a chegada da energia fotovoltaica?

A implantação de sistemas fotovoltaicos com baterias possibilitou que as comunidades passassem a ter energia durante períodos muito maiores, chegando, em algumas situações, a 24 horas por dia. Isso alterou profundamente a rotina dos moradores. Antes, os alimentos obtidos por meio da pesca e da caça precisavam ser consumidos praticamente no mesmo momento, porque não havia como conservá-los. Com a energia, as famílias puderam adquirir geladeiras e freezers. Agora, conseguem armazenar o pescado, conservar outros alimentos e reduzir perdas. Podem consumir uma parte e guardar o excedente para outro momento. A energia também possibilita o bombeamento de água, a iluminação das casas e das áreas comunitárias, a comunicação, a educação e novas formas de organização da vida cotidiana.

Houve algum momento que simbolizou essa transformação para a equipe?

Em 2026, tivemos a satisfação de retornar a uma comunidade e sermos recebidos com um copo de água gelada. Parece um gesto muito simples, mas, no ano anterior, aquilo não seria possível. Estamos falando de uma região onde as temperaturas podem chegar a 40 graus ou mais. A possibilidade de beber água gelada e conservar alimentos demonstra, de maneira muito concreta, como a energia pode transformar a qualidade de vida. Foi algo que só se tornou possível porque a energia solar passou a ser mantida por períodos mais longos e porque os moradores conseguiram adquirir geladeiras e freezers.

Qual é o tamanho das comunidades atendidas?

As comunidades podem reunir aproximadamente 30 a 60 famílias, representando algo entre cem e trezentas pessoas em cada localidade. São populações que vivem em áreas muito isoladas. Em muitas dessas regiões, não existem estradas e o barco é o único meio de transporte para chegar às cidades, obter produtos ou acessar determinados serviços. Por isso, qualquer trabalho de implantação ou manutenção exige planejamento, tempo e uma logística muito complexa.

Como foi a expedição em 2026?

Em 2026, a ETE FMC enviou oito colaboradores, que permaneceram 15 dias na região, juntamente com voluntários da Espanha e outros participantes envolvidos no projeto. Durante esse período, visitamos 12 comunidades. Dez delas já possuíam usinas e, em outras duas, realizamos a implantação de novos sistemas fotovoltaicos. Além da instalação, o trabalho envolveu o levantamento de informações, a avaliação das condições das usinas existentes, a manutenção dos sistemas, a identificação de necessidades e o diálogo com os moradores.

O que a equipe da ETE FMC aprendeu com as comunidades?

Se levamos conhecimento técnico, retornamos com uma quantidade ainda maior de conhecimentos e experiências. Encontramos uma população alegre, hospitaleira, carismática e com uma intensa vida comunitária. São pessoas que compartilham aquilo que possuem. Quando chegamos a uma comunidade, as famílias se reúnem e trazem o pouco do que têm. Dessa partilha, surge um verdadeiro banquete. As casas são simples. Muitas possuem apenas um cômodo, chão batido, redes, um armário ou algumas roupas penduradas. Ainda assim, existe uma forte convivência. Há espaços onde todos se reúnem para conversar, principalmente à noite. É uma realidade que nos leva a refletir sobre consumo, felicidade, necessidades humanas e qualidade de vida.

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