(Bráulio Souza Vianna)
Um dos pratos mais apreciados no Sul de Minas é o pato com arroz vermelho. É um arroz selvagem, considerado uma praga no cultivo do arroz branco, mas que por lá é plantado para se preparar a iguaria. O pato é refogado e depois cozido junto com o arroz vermelho.
O Nego sempre criou patos e, naquele dia, pedi que me arrumasse dois porque convidei minha melhor amiga, amiga de infância, a Selis, para fazermos lá na roça, no casarão da Fazenda Palmeiras, onde passei a morar depois que me formei em Agronomia.
Selis é filha do seu Vítor Carneiro e da dona Regina Teixeira (Mãezinha) que era uma cozinheira de mão cheia, a melhor que já conheci. Todas as irmãs cozinham bem, mas Selis é a que mais se parece com dona Regina no jeito de cozinhar, já era uma excelente cozinheira, e propus, de troça, que cada um de nós fizesse uma receita diferente para ver qual o pessoal iria gostar mais. Entre os vários amigos convidados, o de honra era o Tilenka, que sempre foi figura central e frequente em nossos encontros. Todos se divertiam com seu espírito jovem, seus comentários inteligentes e com suas declamações e piadas.
Vou confessar: usei sim caldo de galinha em tablete. E um pouco de pimenta dedo-de-moça. O resto não conto.
Acontece que só havia arroz vermelho suficiente para um pato. Por consideração à Selis, cedi-lhe o tão cobiçado ingrediente e também o fogão de lenha do casarão e a panela de ferro. Os melhores ingredientes e melhores apetrechos. Amigo é pra isso. Me restaram o fogão à gás, as panelas de alumínio, o arroz branco e uns truques na manga.
Lá pelas 19h começaram a chegar os convidados. Celeste, Fabíola, Ronaldão, Tânia, Carioca, Gutão e Vanuza, Cascatinha, Ulisses e Dany, Duda Adami, Jader (Thiora), Haroldinho, Ricardo da Lucy, Hildebrando e Osvaldinho. Ao todo éramos 19. Cascatinha, Ulisses e Hildebrando se alternavam no violão e todos nós contribuíamos com as vozes. Enquanto isso, íamos preparando os patos….
Eu sabia que minhas chances de vitória estariam em fazer um caldo maravilhoso, deixar o pato bem macio e amarelinho. Devia estar mais macio do que o da concorrente e com um arroz feito na gordura de porco, soltinho e saboroso. Enquanto isso Selis ia preparando o seu com aquela usual eficiência descontraída, seguindo a receita tradicional. Coisa de quem manja tudo.
Um garrafão daquela do Joaquim Laurindo, mas uma envelhecida dele… estava bem no centro da mesa abrindo o apetite da turma. Ao som de Milton, Lô Borges, Beto Guedes, Toninho Horta, os patos foram cozinhando. Enfim prontos, cada um provou das duas receitas. Depois de todos comerem começamos a fazer a pesquisa de intenção de voto. Para isso constituímos dois partidos: O Branco, meu, e o Vermelho, da Selis. Mãos à obra, vamos atrás dos eleitores. E começou a campanha de cada partido para convencer de por que, afinal, merecia o seu voto na eleição do melhor pato. Muito contava a “filosofia” por trás do prato. Apuração oral dos votos feita, deu empate 9 x 9. Faltava votar o Tilenka, voto de Minerva. Com a sabedoria de Salomão, declarou seu voto no partido cor-de-rosa. E explica: a mistura dos dois, do vermelho e do branco juntos no prato foi o melhor de tudo. Além de sábio, foi muito divertido. Significou, para nós, que a amizade e a mistura das personalidades de todos aqueles amigos era sempre melhor do que a de cada um sozinho. Éramos melhores juntos. Profundo. De fato, ambos estavam excelentes.
De barriga cheia e de alma leve, depois das risadas sobre o resultado da eleição, soltamos a voz de novo naquelas canções tão deliciosas quanto os patos.
Antes, Tilenka, animadíssimo, puxou seu novo grito de guerra: “E Viva o Partido Cor de Rosa!!! Viva!!!” – vencedor da eleição com um único voto porque provou ser o melhor resultado possível. Noite maravilhosa. Noite do pato cor-de -rosa.

































