O que é um telefone (um causo de 1926)

(Por Ivon Luiz Pinto)

Antônio: “O que é um telefone, compadre?”
José: “É uma caixinha preta na parede, com um buraco redondo no meio e um negócio comprido dependurado. A gente fala no redondo e o cumprido responde.”
Antônio: “Não é isso que eu quero saber. Conheço esse troço, mais ou menos, pois já vi numa revista. Quero que me explique.”
José: “Pois bem, compadre. Meu sobrinho, que está estudando para padre, já me explicou que a palavra telefone vem do Grego, querendo dizer ‘uma voz longínqua’. Uma voz que vem de longe.”
Antônio: “Também não é isso que me interessa! Quero saber como funciona!”
José: “Ah! Já vou explicar. Preste atenção, compadre. Imagine um porco.”
Antônio: “Para quê?”
José: “É preciso que você imagine para eu poder explicar
Antônio: “O que tem o telefone com um porco?”
José: “Se não quer imaginar um porco não posso dar a explicação que deseja.”
Antônio: “Faço-lhe a vontade. Vou imaginar. Pronto já imaginei.”
José: “Bem, agora imagine um porco do tamanho de um cavalo.”
Antônio: “Ora, essa é boa! Quer fazer-me de tolo! Você está dizendo coisas do arco da velha!”
José: “De modo algum. Se o compadre quer que eu explique o que é um telefone, deve agora imaginar um porco do tamanho de um cavalo!”
Antônio: “Mas isso é impossível. Não existe porco desse tamanho!”
José: “Bem sei que não existe. Mas é preciso que você imagine, se quer que eu explique tudo.”
Antônio: “Está feito. Já imaginei.”
José: “Agora imagine um porco do tamanho de um elefante.”
Antônio: “Nossa Senhora! Isso já é demais. Nunca houve porco desse tamanho!”
José: “Sei bem que não houve e nem haverá. Mas trata se unicamente de imaginá-lo.”
Antônio: “Bem, para lhe ser agradável, eu imagino. Mas não sei onde você quer chegar. ”
José: “Agora imagine um porco tão grande como uma igreja
Antônio: “Isso nem imaginar se pode! Você está brincando comigo.”
José: “Dou minha palavra que não. A imaginação humana é ilimitada. Se quer minha explicação, imagine.”
Antônio: “Já. Mais alguma cosa? Mas desconfio que você está zombando de mim.”
José: “Agora mais uma imaginaçãozinha. E pronto.”
Antônio: “Mais uma?
José: “Sim. É a última. Imagine um porco tão grande que o focinho esteja na cidade, mas o rabo aqui na roça.”
Antônio: Não posso imaginar isso. Quero só saber onde você quer chegar. Você já está me aborrecendo com esse porco. Afinal o que tem esse porco danado com o telefone?”
José: “Já vai saber. Mas é preciso que você imagine primeiro este último porco.”
Antônio: “Pronto”.
José: “Bravo. Se você beliscar o rabo do porco aqui da roça, grunhirá o focinho na cidade. Eis como funciona um telefone.”
Antônio: “Compreendi. Assim é fácil. E para ter a resposta?”
José: “É só virar o porco.”
(Adaptado do jornal A Sapucaia de fevereiro de 1926)

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