O santa-ritense que criou a fórmula brasileira do cimento branco

(Carlos Romero Carneiro)

Documentos que ajudam a contar uma importante página da história da indústria nacional acabam de ser incorporados ao acervo do Museu Histórico Delfim Moreira, em Santa Rita do Sapucaí. Entre cartas, fotografias, registros pessoais e documentos profissionais está a trajetória do químico Edmur Carneiro de Carvalho, responsável por desenvolver, durante a Segunda Guerra Mundial, a primeira fórmula brasileira de cimento branco. A inovação reduziu a dependência das importações e deu origem ao rejunte utilizado até hoje na construção civil. O material também evidencia o reconhecimento que o profissional recebeu de uma das maiores indústrias cimenteiras do país.

Cidadão ilustre de Santa Rita do Sapucaí

Pouca gente sabe, mas uma das mais relevantes contribuições para a construção civil brasileira nasceu da inteligência de um filho de Santa Rita do Sapucaí. Em plena Segunda Guerra Mundial, quando o Brasil enfrentava severas restrições às importações, Edmur Carneiro de Carvalho encontrou uma solução nacional para substituir um produto indispensável às obras da época.
Formado em Química Industrial pela Escola de Engenharia da Universidade de Minas Gerais, Edmur construiu uma carreira de destaque na Companhia Cimento Portland Itaú, uma das maiores fabricantes de cimento do país. O acervo preservado por sua família permite reconstruir essa trajetória e compreender a dimensão de sua contribuição para o desenvolvimento tecnológico brasileiro.

A segunda grande guerra

Durante a década de 1940, o conflito interrompeu cadeias de abastecimento, reduziu drasticamente o comércio internacional e dificultou a chegada ao Brasil de diversos produtos industrializados. Entre eles estava o cimento branco, matéria-prima importada e fundamental para acabamentos de maior qualidade na construção civil.

Diante desse cenário, a Companhia Cimento Portland Itaú confiou a Edmur a missão de criar uma alternativa produzida integralmente no país. O desafio exigia amplo conhecimento químico, pesquisa e capacidade de inovação. O resultado foi o lançamento do cimento branco “Especial”, fabricado pela primeira vez no Brasil e que mais tarde se consolidaria como a base do rejunte amplamente utilizado nas construções.

Mais do que substituir um produto importado, a solução permitiu reduzir a dependência do mercado externo em um dos momentos mais difíceis da economia mundial. O trabalho desenvolvido pelo químico contribuiu para manter o ritmo da construção civil, fortalecer a indústria nacional e consolidar uma tecnologia genuinamente brasileira.

Reconhecimento

A importância desse trabalho aparece registrada em uma carta datada de 27 de outubro de 1943, enviada pela diretoria da Companhia Cimento Portland Itaú. No texto, a empresa comunica que o Conselho Fiscal decidiu registrar um elogio formal aos profissionais envolvidos no “auspicioso lançamento do nosso cimento branco ‘Especial’ que, pela primeira vez, se fabrica no Brasil”. A correspondência faz questão de incluir Edmur entre os colaboradores homenageados, destacando sua participação decisiva no sucesso da iniciativa.

Outro documento, de 24 de dezembro de 1941, demonstra a estima da empresa pelo químico. Em reconhecimento aos serviços prestados e ao interesse demonstrado pelo progresso da companhia, a administração concedeu a Edmur uma gratificação de dois contos de réis, acompanhada dos votos de boas festas à sua família.

Sua trajetória também foi marcada pelo compromisso com a formação de novos profissionais. Em 1997, o Departamento de Engenharia Química da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) agradeceu a doação de sua Enciclopédia de Química Industrial ao acervo bibliográfico da instituição, gesto que reforça sua dedicação permanente à difusão do conhecimento.

Legado imperecível

A história de Edmur Carneiro de Carvalho demonstra como profissionais do interior de Minas Gerais tiveram papel relevante no avanço tecnológico do país. Embora seu nome permaneça pouco conhecido do grande público, sua contribuição continua presente em milhões de construções brasileiras. A solução criada em um período de escassez provocado pela guerra atravessou décadas e permanece fazendo parte da rotina de pedreiros, engenheiros e arquitetos.

Quem desejar conhecer esse importante conjunto documental pode visitar o Museu Histórico Delfim Moreira, em Santa Rita do Sapucaí, de segunda a sexta-feira, das 8h às 11h30 e das 13h às 16h30. A entrada é gratuita.

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