Como Emerson se tornou maratonista em um ano e meio de treinamento

(Carlos Romero Carneiro)

Consciência pesada e perda de emprego
Em dezembro de 2024, logo depois da ceia de natal, Emerson Silva deu uma conferida na balança e tomou um susto. A máquina acusou 98,9 quilos, o que o deixou bem chateado e com a consciência nada tranquila. Para piorar a situação, perdeu o emprego no início do ano, ficou ainda mais frustrado e chegou à conclusão de que, ou iria afogar as mágoas na cerveja ou deveria fazer algo da vida. Ele optou pela segunda alternativa e, para isso, decidiu recuperar um hábito antigo. Iria voltar a correr para perder peso, ocupar o tempo e aliviar o stress.

Segunda eu começo
Emerson corria no passado e chegou a fazer uma meia maratona em Manaus, onde morava, por volta de 2017. Quando retornou para Minas, no ano seguinte, continuou treinando um pouquinho, mas interrompeu o hábito durante a pandemia. Até chegou a tentar correr outras vezes mas, como perdeu o ritmo, ficou sem coragem e acabou desanimando. “Eu tentava correr como no passado mas, como não conseguia, ficava frustrado e com dor no corpo por uma semana.” O que virou a chave, em janeiro do ano passado, foi que ele entendeu que não conseguiria correr como antes, mas que precisava sair da inércia. Ele decidiu se exercitar dentro das suas possibilidades, sem se preocupar com o desempenho e começou na segunda seguinte.

Obedecendo aos próprios limites
Quando voltou a treinar, Emerson correu cerca de dois quilômetros em dezessete minutos. “Sem problema! Amanhã eu volto a correr e farei a mesma coisa todos os dias até conseguir melhorar o meu desempenho! Eu corria três dias, me cansava bastante, pulava um dia, retornava novamente e comecei a criar metas para ir melhorando a cada dia. Sem conhecer nada de fisiologia de corridas, tracei um plano de correr três ou quatro dias por semana. Corria seis quilômetros em um dia, sete no outro e dez nos finais de semana. Demorou meses para que conseguisse alcançar este desempenho, mas fui progredindo aos pouquinhos.”

O negócio começa a ficar sério
No dia 30 de março de 2025, Emerson conseguiu correr dez quilômetros pela primeira vez, desde que voltou a se exercitar. Ele queria melhorar o seu tempo e, em maio do ano passado, definiu um trajeto até chegar ao campão, onde finalizaria os doze quilômetros que tinha traçado como objetivo. “Quando entrei no campão, havia um rapaz correndo na minha frente e eu fui seguindo o sujeito. Estávamos no mesmo ritmo. Na terceira volta, concluí o meu objetivo, mas o rapaz continuou correndo. Decidi seguí-lo e dei mais algumas voltas. Só depois eu fui descobrir que era o Ronan Júnior, especialista em corrida de rua e treino de força. Comecei a segui-lo no Instagram, vi que ele tinha uma academia chamada MobFast e que era maratonista e professor de corrida. Quando descobri que ele prestava assessoria para pessoas que queriam correr e que uma amiga da Mikaela, minha esposa, havia começado a treinar com ele, decidi entrar em contato. Eu já tinha comprado um curso pela internet e estava seguindo o treinamento e as dicas de nutrição. Também já tinha diminuído muito o consumo de bebida. O Ronan perguntou se eu tinha o objetivo de participar de alguma prova, quis saber como estava o meu desempenho e qual era a minha meta.”

Treinamento
Emerson já tinha comprado uma corrida conhecida como “Volta da Pampulha” que iria acontecer em dezembro na cidade de Belo Horizonte, com dezoito quilômetros de extensão. Até então, o máximo que tinha feito eram doze quilômetros, ainda estava bem acima do peso e sua meta era correr abaixo dos cinco minutos por quilômetro. Ele já estava em cinco e trinta e queria melhorar um pouco o seu tempo. Mal sabia que, onze meses depois, conseguiria concluir uma maratona (42 quilômetros), num ritmo abaixo de cinco minutos. “Isso foi algo que eu lembrei enquanto estava correndo e que me emocionou bastante. Foi bem significativo pra mim”.

Maratona
Até então, o corredor não tinha intenção de percorrer os quarenta e dois quilômetros de uma maratona e acreditava que não conseguiria finalizar o percurso em vias de completar quarenta anos. De tanto o Ronan incentivá-lo a realizar a Muralha, umas das mais famosas provas do país, decidiu tentar outra competição do mesmo estilo para avaliar os seus limites. “A muralha possui 1200 metros de ganho de elevação. É muita subida! Antes de participar de uma prova assim, eu queria primeiro conseguir concluir uma maratona de quarenta quilômetros, o que eu nunca tinha feito antes. O máximo que tinha corrido foi uma meia maratona, há muito tempo. Quando surgiu a competição de BH, com primeira edição em maio, decidi participar por ser uma corrida plana. Desde o final do ano passado, passei a me consultar com um nutricista chamado Vander Freire, peguei firme na alimentação para perder mais peso através da ingestão de menos calorias do que o meu gasto diário e aumentei a carga de treinos. No decorrer de uma semana, passei a correr sessenta quilômetros, somando todos os dias.

Persistência
Para o treino de maratona, o importante não é treinar a velocidade, mas a distância. Como trabalha de segunda a sexta-feira, Emerson acorda às cinco da manhã para correr três vezes por semana, além do sábado. Ele treina, volta para casa, toma um banho, se alimenta e corre para cumprir o expediente. Também faz academia para fortalecimento do músculos, já que o corpo não aguenta se o atleta apenas treinar corrida. Além desses cuidados, é necessário beber muita água, afastar o consumo de álcool e dormir bem. “Para realizar a minha primeira maratona, segui essa fórmula desde janeiro, treinando quatro vezes por semana, sem falhar. Ainda assim, eu não sabia se conseguiria completar o trajeto. Teria que tentar e ver no que dava.”

O grande dia
No esperado dia, o corredor conseguiu percorrer a maratona de Belo Horizonte e contou qual foi a sua sensação no decorrer do trajeto: “Esta corrida é uma relação de amor e ódio. Você sente cansaço, dores musculares e dor nos joelhos. Eu não pensei em desistir, mas achei que não iria conseguir terminar. Até o quilômetro trinta e oito, fui no ritmo que precisava, mas, nos últimos quatro quilômetros, o corpo parecia que não queria mais seguir em frente. Eu cheguei a caminhar um pouco, corri, caminhei de novo e segui correndo quando faltavam três quilômetros e seiscentos para alcançar a minha meta. Para dizer a verdade, não sei como consegui dali em diante e nem lembro muito bem como foi o final. A exaustão é tão grande que nem sei como fiz o restante da prova. Nunca me senti tão cansado em toda a minha vida. Nada que eu fiz antes foi tão desgastante. Quando terminei, não conseguia andar, nem me sentar e tudo doía. Ao mesmo tempo em que estava no limite das minhas forças, não parava de pensar que precisava repetir aquilo de novo. É muito louco! Durante a corrida, você sente dor e a cabeça tenta sabotá-lo o tempo todo. Quando termina, é uma sensação inexplicável e que você quer repetir.
Na linha de chegada, gritei, esbravejei e até chorei. Até hoje, quando lembro, me emociono porque não é a maratona em si, mas toda uma jornada que precisamos cumprir para chegar até lá. Existe todo um processo. Cheguei ao final em três horas, vinte e nove minutos e quarenta e três segundos.”

O que vem por aí?
O objetivo de Emerson para os próximos meses é seguir com os santa-ritenses para a Muralha. Ele conta que os atletas de Santa Rita do Sapucaí são muito tradicionais neste evento e que pretende participar da prova por incentivo deles. “O Ronan participa todos os anos desta prova que consiste na travessia de uma serra entre Penedo e Visconde de Mauá. Em uma edição, a prova começa em uma cidade e, no ano seguinte, invertem o sentido. Trata-se de uma maratona inspirada na Conrads, que acontece na África do Sul e que é muito tradicional. A altimetria dela é muito elevada. A Muralha possui uma etapa de descida e outra subida, entre uma cidade e outra. Quando você conclui as duas etapas, ganha uma terceira medalha. Eles também oferecem o chamado “Black Number”, que é uma identificação concedida depois que o corredor participa do evento por dez edições. Como o Ronan, o Eduardo Calisto e alguns outros poucos corredores participam do evento desde o início, no ano que vem irão receber esta identificação que é diferente das demais.
Santa Rita do Sapucaí tem muita tradição na Muralha. O Calisto é o único corredor que subiu ao pódio deste tradicional evento em todas as edições e é considerado uma lenda entre os competidores. Creio que somente em duas ou três vezes um corredor de nossa cidade não tenha vencido este evento. Meu objetivo é concluir esta prova, pela primeira vez, ainda neste ano e estou treinando bastante para isso. Este é o meu objetivo.”

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