Quando Daniel Margonato chegou a Santa Rita do Sapucaí, vindo de Santo André (SP), não imaginava que construiria sua história em um setor completamente diferente daquele para o qual havia se preparado. Formado em hotelaria e com experiência em grandes hotéis paulistas, ele trocou a rotina da gastronomia pelo volante de um ônibus rural. A mudança, motivada por circunstâncias familiares, religiosas e pela busca de uma nova vida no interior mineiro, acabaria dando origem a uma das trajetórias mais conhecidas do transporte de passageiros no município. Quando ele chegou à cidade, no final da década de 1970, Santa Rita do Sapucaí ainda tinha características essencialmente interioranas. Os bairros eram poucos, as distâncias podiam ser percorridas a pé e praticamente não existia demanda por transporte coletivo urbano.
Quase cinco décadas depois, quando faleceu em abril de 2026, aos 72 anos, Daniel deixava uma marca profundamente ligada ao desenvolvimento da cidade. O empresário foi responsável por implantar e consolidar um serviço que acompanhou o crescimento urbano santa-ritense, conectando bairros, comunidades rurais, estudantes e trabalhadores em uma época em que a cidade começava a expandir os seus limites. Sua história é também parte da história de transformação de Santa Rita do Sapucaí.

De Santo André para Minas
Natural de Santo André, no ABC Paulista, Daniel construiu os primeiros anos de sua vida profissional em uma realidade muito diferente daquela que encontraria em Minas Gerais.
Formado na área de hotelaria, trabalhou no Hilton Hotel, um dos mais tradicionais empreendimentos do setor no país. Sua formação e experiência estavam ligadas à gastronomia, ao atendimento e à administração hoteleira. Nada indicava que o futuro o levaria para o setor de transportes.
Ao lado da esposa, dona Creusa Margonato, decidiu deixar São Paulo no final dos anos 1970. A mudança ocorreu após visitas a parentes que já viviam em Santa Rita do Sapucaí. Encantado com a cidade e com a qualidade de vida do interior mineiro, resolveu estabelecer ali seu novo lar. A filha Daniela, a primogênita da família, recorda que a mudança ocorreu quando ela ainda era muito pequena. Posteriormente nasceriam os outros filhos: Débora, Dario e Samuel.

O primeiro negócio e uma decisão improvável
Ao chegar a Santa Rita, Daniel investiu em um pequeno estabelecimento comercial conhecido como Bar da Roça. O negócio representava uma continuação natural de sua experiência profissional anterior.Porém, um acontecimento mudaria completamente sua trajetória. Membro da Congregação Cristã no Brasil, ele assumiu compromissos religiosos que exigiam sua a presença justamente nos horários de maior movimento do estabelecimento. Diante da dificuldade de conciliar as duas atividades, surgiu uma alternativa aparentemente improvável: trocar o bar por um ônibus que fazia uma linha rural até o bairro do Vargedo. A proposta veio de uma conversa com o cunhado, Dito do Oscar, que atuava no transporte de passageiros. A troca foi concretizada e marcou o início de uma jornada que transformaria, não apenas sua vida, mas também a mobilidade de Santa Rita do Sapucaí. Como homenagem e reconhecimento, Daniel nomeou a empresa com as iniciais do nome do município: SA-RTA-SA, em referência a Santa Rita do Sapucaí.

Um bar por um ônibus
Se a troca parecia arriscada, a realidade mostrou-se ainda mais desafiadora. Muito antigo, o ônibus atendia à região do Vintém e do Vargedo, em um trajeto rural que possuía poucos passageiros e baixa rentabilidade. Daniel não tinha experiência na área. Não conhecia mecânica, manutenção, pneus, operação de frota ou gestão de transporte.Virou motorista, mecânico, borracheiro e administrador, ao mesmo tempo. Passava os dias conduzindo o veículo e as noites tentando entender como mantê-lo funcionando. O trabalho era intenso e o retorno financeiro demorava a aparecer. Em muitos momentos, os números indicavam que a atividade não era sustentável. Ainda assim, Daniel insistiu. “Ele nunca falava em desistir ou voltar para São Paulo. Tinha convicção de que aquilo ainda iria crescer”, recorda Daniela.

Ele cresceu junto com a cidade
O ponto de virada coincidiu com uma mudança importante na história de Santa Rita do Sapucaí. Até então, a cidade possuía dimensões reduzidas. Com o surgimento dos primeiros conjuntos habitacionais, a partir do Recanto das Margaridas, ampliou a área urbana e criou novas necessidades de deslocamento. Com mais famílias vivendo longe do centro, o transporte coletivo deixou de ser apenas uma necessidade rural e passou a ser uma demanda urbana.

Daniel percebeu rapidamente a mudança
Enquanto muitos ainda observavam o crescimento dos bairros, ele enxergou uma oportunidade de estruturar linhas regulares para atender os novos moradores. Foi o início do transporte coletivo urbano na cidade. À medida que Santa Rita crescia, a empresa também crescia. Novos bairros surgiam, a população aumentava e o fluxo de estudantes e trabalhadores se intensificava. Logo vieram as viagens para Pouso Alegre, o transporte estudantil, as linhas intermunicipais e, posteriormente, os serviços de turismo.

A pequena operação familiar transformou-se em uma empresa estruturada
Os filhos passaram a ajudar no negócio. Daniela lembra que atuava na cobrança das passagens quando ainda era jovem. Posteriormente, Creusa assumiu funções administrativas e passou a desenvolver o setor de turismo, contribuindo diretamente para a expansão da empresa. No auge das operações, a frota chegou a, aproximadamente, 40 ônibus, entre urbanos, rodoviários e de turismo. O pátio instalado na Avenida João de Camargo tornou-se uma referência para gerações de santa-ritenses.
Quem conviveu com Daniel costuma destacar três características: disciplina, fé e perseverança. Uma das histórias mais lembradas pela família ocorreu quando a empresa precisava adquirir um novo ônibus para atender à crescente demanda da cidade. Sem recursos suficientes para a compra, Daniel aguardava ser contemplado em um consórcio. Segundo os relatos familiares, ele considerava aquele momento decisivo para a continuidade do negócio. Daniel orou, pediu a Deus que o ajudasse naquela necessidade que iria contribuir para o seu trabalho e, naquele mês, acabou sorteado. O veículo adquirido permitiu ampliar os serviços justamente quando a cidade passava por um período de expansão. Para ele, aquele episódio sempre foi visto como uma resposta às orações que fazia diariamente, colocando os seus passos nas mãos de Deus.

Ele nunca deixou de estudar
Mesmo trabalhando todos os dias, Daniel continuou investindo em sua educação.Formou-se também em Filosofia, em Pouso Alegre, através de uma rotina exautiva.
Ele conduzia os estudantes até a cidade, assistia às aulas e retornava ao volante para trazê-los de volta. O mesmo homem que dirigia os ônibus também estudava, administrava a empresa e realizava a manutenção dos veículos, durante todo o dia.
Um legado que ultrapassou fronteiras
Nos últimos anos, Daniel enfrentou problemas de saúde que reduziram gradualmente o ritmo de alguém acostumado a estar sempre em atividade. Ainda assim, segundo a família, ele tinha a sensação de ter cumprido os principais objetivos de sua vida. Um deles era proporcionar oportunidades para os filhos e netos. Hoje, três filhos vivem no exterior e, um deles, permaneceu em Santa Rita do Sapucaí. Daniel participou ativamente dos processos de cidadania italiana que abriram portas para as novas gerações estudarem e trabalharem no exterior. Era comum, segundo Daniela, que ele elaborasse listas anuais de metas e sonhos. Com disciplina e planejamento, buscava transformar cada objetivo em realidade. Tudo o que planejou se concretizou.

Um nome ligado à história da cidade
A história de Daniel Margonato vai além da trajetória de um empresário bem-sucedido. Quando os primeiros loteamentos começaram a surgir, seus ônibus já estavam prontos para transportar os novos moradores. Quando os estudantes precisaram se deslocar para outras cidades, seus veículos fizeram esse caminho. Quando o turismo começou a crescer, sua empresa já possuía experiência para atender à demanda. Por trás da frota que muitos santa-ritenses conheceram ao longo das últimas décadas estava um homem que chegou à cidade sem qualquer experiência no setor, mas que acreditou em um projeto quando parecia inviável.
Quase cinquenta anos depois de trocar um pequeno bar por um ônibus antigo que mal se sustentava, Daniel Margonato deixa um legado construído sobre trabalho, fé e persistência. Valores que ajudaram a colocar Santa Rita do Sapucaí em movimento e que permanecem vivos na memória da família, dos amigos e de milhares de passageiros que fizeram parte dessa bonita trajetória.


































