(Por Carlos Romero Carneiro)
Há uma cidade dentro de mim, com suas ruas, templos e tempos. Em suas curvas, observo pessoas que já se foram e aceno, aguardando um “oi” que não retorna. Eu abro as crônicas do doutor Cyro, amigo que não conheci, e descubro que o Sapucaí forma barrancos do lado esquerdo e bancos de areia na margem oposta. Foi também com ele que visualizei a travessia do comendador, do Balaio à primeira capela, e soube que o antepassado de um grande amigo foi sepultado com uma pequena gaita entre as mãos.
Se é carnaval, imagino a vinda dos meus amigos para ver o desfile; se é fim de tarde, paro para ouvir a Ave Maria da torre da matriz. Na sexta-feira da paixão, torço para ouvir novamente o som das matracas que subiam o morro em cortejo, em direção à paineira. Será que ainda existe aquele banco no alto do cruzeiro com a data da criação do monumento, gravada no cimento? Será que, em algum lugar daquela montanha, ainda existe um marco topográfico indicando o cruzeiro do sul?
No outro canto da cidade, me encanto com o piso em ladrilho ornamentado do ossário, bem ao lado do túmulo com a fotografia de uma criança morta. E no alto do cemitério, passo pelo túmulo do meu pai para dizer um oi e do meu amigo Miguel para chamá-lo de “turco”.
Ao redor do “calipá”, as placas da Vista Alegre prendem a minha atenção e noto a sabedoria de Sinhá Moreira quando nomeou a “Felicidade” no fim (ou no começo?) da rua do “Crepúsculo”.
Como num estalo, me vejo no cruzeiro da rua do Queima, com todos aqueles santos, ora sem cabeça, ora sem os braços mas, até hoje, não descobri a história daquele lugar. Quem teria instalado uma cruz no meio de uma encruzilhada? São coisas que talvez nem o cronista Ideal Vieira soubesse dizer. Se contou, eu não li. Mas li em sua coluna, “E a árvore floriu e deu frutos”, que um dos fundadores do povoado encontrou Duque de Caxias, enquanto viajava. Li também que a praça, desenhada por Leopoldo de Luna, era cercada para evitar que as vacas soltas pastassem entre a moçada. Mas não foi lá, entretanto, que descobri que “Vaca Solta” era sinônimo de bêbado que perambulava pelas ruas. Isso aprendi com o Elísio Rosa.
Quem tem olhos de ver, admira a beleza desse lugar por onde tanta gente boa passou. Queria ter olhos para ver os primeiros habitantes da Rua Nova, os treinos do Industrial e quem plantou a árvore que iria permanecer solitária, no miolo da João Rennó.
Imaginando o tempo, lembro que conheci figuras que parecem viajar através dele. Por sorte, tomei uma cervejinha com o Monsenhor, que viria a se encantar e se transformar em monumento em frente à Matriz. Não raramente, vasculho antigos documentos e encontro passagens do meu bom amigo Ivon. Será que ele esconde um DeLorean no quintal e viaja por aí, de uma década a outra, desvendando fatos que a gente só conhece de ouvir contar? Quando li que ele lavrou a ata de uma antiga reunião da Escola de Comércio, tive certeza de que criou uma máquina do tempo e que salta pelos acontecimentos, narrando tudo o que vê. Nesta edição, ele reclamou em sua crônica que alguém disse que ele fala demais. Fala nada… Mas eu vi o seu artigo da década de 60, no Correio do Sul, bem ao lado da nota de falecimento de “Seu Dilino”. Assim como o Ivon, que escreve para este jornal há quase duas décadas, sigo na esperança de poder “conversar” com algum leitor que encontrará este exemplar, já corroído por traças, em alguma prateleira, daqui a 100 anos. Se isso acontecer, como aconteceu com Cyro e Ideal, envio um abraço, desejo boa leitura e mando votos de que ame tanto esta terra quanto nós, aqui do passado.

































