Por Rogério Leite Ribeiro e Silva
Nos primeiros dias deste ano, recebi a visita de Paulo Tadeu Leite Arantes, professor de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Viçosa. Entre taças de vinho, falamos sobre as cidades, seus movimentos e transformações e, naturalmente, Santa Rita do Sapucaí ocupou o centro da conversa.
Como convém a um grande mestre, Paulo discorreu sobre a decisão assertiva, tomada nos últimos anos, de projetar o Vale da Eletrônica no diapasão da contemporaneidade. Fundamentou sua análise nas singularidades da cidade, em seus movimentos históricos e nas exigências do futuro. Confesso que minhas reservas foram se dissipando diante de uma realidade evidente, embora nem sempre fácil de apreender.
Segundo ele, a cidade foi uma das mais interessantes invenções humanas. Os centros urbanos assumiram protagonismo indiscutível, sobretudo em um mundo no qual mais da metade da população vive neles. Desde a Antiguidade, as pessoas buscam vínculos, pertencimento e transformação como condição de sobrevivência. O mesmo ocorre com as cidades: se não evoluem, fenecem. Detroit é exemplo disso; Santa Rita, ao contrário, parece vocacionada à reinvenção.
Para compreender a atual euforia transformadora, é preciso recuar a três momentos decisivos. O primeiro foi a inauguração da ETE, em 1959, pioneira no ensino de eletrônica no Brasil e na América Latina. Depois, em 1965, veio o Inatel, igualmente pioneiro em engenharia de telecomunicações. Essas instituições mudaram o rumo de uma cidade até então agrária, alicerçada no café e no leite.

Até os anos 1980, parecia natural que Santa Rita se consolidasse como formadora de mão de obra para grandes empresas da eletrônica e telecomunicações. Com a crise que se seguiu, porém, os empregos rarearam, e a cidade reagiu estimulando seus jovens a empreender. Nasceram protótipos, empresas e um arranjo produtivo local que, décadas depois, reúne cerca de 170 indústrias, fatura aproximadamente três bilhões de reais, emprega quase vinte mil pessoas e exporta para mais de quarenta países. Nesse contexto surgiu o dístico “Vale da Eletrônica”, que projetou Santa Rita para além de suas fronteiras.
Mais recentemente, lideranças perceberam sinais de acomodação. A cidade havia mudado — inclusive em sua composição humana. Novos empresários trouxeram novas demandas, sobretudo por vida cultural e lazer. Desenhava-se uma terceira transformação: menos tangível, mais voltada à mobilização das pessoas e ao fortalecimento do pertencimento.
Assim nasceu o movimento Cidade Criativa, Cidade Feliz, com a proposta de fomentar criatividade, empreendedorismo, cultura e inovação de forma aberta e distributiva. O primeiro festival, em 2013, foi experimental; o de 2014, mais maduro, ganhou adesão entusiástica e se expandiu. Aos poucos, o movimento deixou de ser episódico e passou a funcionar como uma usina permanente de ideias.
A experiência revelou algo claro: atividades culturais e criativas geram impactos econômicos e fortalecem autoestima e pertencimento. Pessoas transformadas transformam cidades. A arte entrou no cotidiano, consolidando Santa Rita como referência também em empreendedorismo criativo. Desse ambiente nasceu o HACKTOWN, hoje um dos festivais mais respeitados de criatividade e inovação.
Nada disso ocorreu por acaso. Governo, empresas e instituições caminharam juntos. Sem convergência e fortalecimento das relações, não há cidade criativa que se sustente. Conexões mudam cidades — e conexões são feitas por pessoas movidas por espírito colaborativo. Orientar esse movimento é a condição para conduzir qualquer cidade a um estágio mais criativo e feliz. Afinal, como ensinou Gandhi, se queremos ver o mundo mudar, precisamos promover a mudança que desejamos.

































