Do sertão à serenata: a emocionante história de “Baiano do Táxi”

Após deixar a Bahia ainda jovem, Lourival Gomes Cruz atravessou o país, construiu família, virou taxista e transformou sua trajetória em música e amizade.

Vindo do Sertão da Bahia
Filho de uma família muito pobre e analfabeta, Lourival Gomes Cruz nasceu em Euclides da Cunha, cidade do sertão baiano. Sua vinda para a região sudeste aconteceu quando completou 18 anos, após ter sido dispensado do serviço militar em Salvador, por um problema de desenvolvimento físico. O rapaz havia passado por um início de paralisia infantil, o que comprometeu a sua saúde nos primeiros tempos de vida.
Em busca de melhores condições, partiu para São Paulo como fizeram alguns de seus parentes. Desembarcou no início de novembro de 1968 na antiga rodoviária localizada à praça Júlio Prestes. “Fiquei feito um passarinho perdido, mas não perdi o ânimo.” De lá, partiu para São Miguel Paulista em busca de um tio. Baiano não tinha o endereço. Veio somente com o nome do parente anotado em um pedaço de papel. “Entrei num táxi, um DKV de um motorista português e pedi que ele me levasse ao parque Dom Pedro II”. Lá, ele embarcou em um circular que o levaria à cidade de destino.

Coincidência ou milagre?
Mal desembarcou, chamou a atenção de um homem de porte atlético que perguntou se ele era nordestino. Aos risos, baiano respondeu que o tamanho da cabeça deveria ter entregado a sua origem e os dois ficaram amigos. O sujeito era um lutador que fazia parte do programa “Gigantes do Ringue”, da TV Record, contou que estava em lua de mel, mas que poderia ajudá-lo. E lá se foram o lutador, baiano e a esposa para Vila Verde, onde o sujeito morava. “Ele me deu pouso e parti na manhã seguinte em busca dos meus familiares. O lutador dizia que, numa cidade daquele tamanho, não seria fácil, mas eu encarei o desafio.”
Quando passou pelo Cemitério da Saudade, parou em uma lanchonete para tomar um café. Bem ao lado, havia um açougue e, da porta do estabelecimento, começou a ser observado por um rapaz. “Não é que aquele cara que estava me encarando era o meu primo?” O rapaz se aproximou de Baiano e perguntou: “Você não é o filho da tia Raimunda? Ele pediu que eu aguardasse que, depois das 13 horas, o levaria à casa dos meus tios. Impressionante!”
Lourival conseguiu emprego depois de uma semana e passou a trabalhar em uma empresa chamada Companhia Nitroquímica Brasileira, do grupo Antônio Ermírio de Moraes. Sem conhecer nada da profissão, passou a atuar em uma tecelagem após algumas horas de treinamento. De lá, foi empregado pela Continental Discos, local onde eram produzidos os LP’s e onde as gravações eram feitas. “Um enteado do tio João me convidou para fazer um teste e fui trabalhar com galvanoplastia”. Entre uma rotina e outra, teve a oportunidade de conhecer o cantor Noite Ilustrada, a quem contou, pela primeira vez, que sonhava em ser artista.
Depois de alguns anos, Lourival já trabalhava como segurança no Banco Boa Vista, num tempo em que não havia assaltos como hoje. “Comecei a namorar uma moça de Nepomuceno. Eu a conheci em Santo Amaro. Era toda desconfiada. Eu disse que me chamava Carlos e contei meu nome verdadeiro quando vi que a coisa era séria. Um dia eu entreguei meu documento a ela, contei que me chamava Lourival e disse que, se ela quisesse um assunto sério, eu estava interessado. Lá se vão 54 anos juntos!”

Chegada a Santa Rita
A vinda para Santa Rita do Sapucaí aconteceu durante uma visita à cunhada, que morava na cidade. “Sou cunhado da Lurdes do Zé Biscoitinho! Gostei tanto da cidade que disse para mim mesmo que viria morar em Santa Rita na primeira oportunidade que tivesse.”
Baiano voltou a São Paulo, doou tudo o que tinha para uma creche, pegou um ônibus e veio. O fato foi tão marcante que ele chegou a compor um cordel:
“Nos anos 70,
São Paulo eu deixei.
Na esperança de vir em paz,
E na Fernão Dias me mandei
Com destino a Minas Gerais.
Quando aqui cheguei,
O organismo reconheceu
A bondade do povo,
Que Minas me concedeu.”

Lourival começou a vida em Santa Rita do Sapucaí fazendo bicos, até ser convidado por João Conde (João Teixeira Pires) para trabalhar em seu táxi. Mal começou, já ganhou o apelido que o marcaria para sempre: “Baiano do Táxi”. Ao entregar o automóvel ao proprietário, foi convidado por outro taxista, José Anézio da Casa de Frutas. “Um grande cidadão! Pensa numa pessoa dez. É ele!”
O veículo próprio foi conquistado, depois de muito esforço, quando Geraldo Magela quis vender a ele tanto um Chevettinho quanto o ponto ao lado do hospital. Como só poderia negociar à vista, foi necessário emprestar dinheiro no banco e aproveitar a oportunidade. “Até pra São Paulo eu ia com esse Chevette!”
Baiano chegou a retornar à sua terra natal depois de alguns anos e até alugou uma casa. Não aguentou muito tempo e retornou a Santa Rita. Sua “meia água” foi construída num terreno cedido pela cunhada e comprado posteriormente. Ele criaria os seus filhos e se aposentaria com salário mínimo. “Ainda trabalho como motorista. Sempre tive a honra de dirigir para a família Kallás, para a doutora Elizabeth e para a saudosa mãe do Gustavo, dona Neuza Kallás”.

Vítima de violência
Em seus tempos de taxista, dois momentos o marcaram de forma muito traumática. Baiano foi vítima de violência por duas vezes e quase perdeu a vida. “Eu fui vítima de agressão de bandidos por duas vezes. Na primeira vez, três elementos de São José dos Campos me sequestaram. Eu estava no ponto aguardando uma senhora voltar da maternidade, quando chegaram três homens e me perguntaram se eu poderia fazer uma corrida. Eles queriam ir ao Restaurante do Gaúcho, na beira da estrada. Quando eles entraram, Deus me deu um sinal e suspeitei de que se tratavam de bandidos. Decidi sair pela ponte da pracinha para ter um pedacinho de rodovia onde pudesse tentar me salvar. Bem em frente à estação ferroviária, tomei uma coronhada na cabeça que me renderia 13 pontos. O sangue escorria. Eu estava no carro do João Conde, um Monza novinho, com 5 mil quilômetros rodados. Tive a serenidade para fazer um movimento com o carro que fez com que os dois homens que estavam atrás batessem cabeça com cabeça. Entrei no trevo com o carro praticamente deitado e parti em direção à antiga Real. Naquele ponto, dei um cavalo de pau que fez com que o homem que estava ao meu lado batesse a cabeça no painel. Foi só o pó da bagaça. O guarda da Real viu a cena, chamou a polícia, que rapidamente prendeu os homens. Por coincidência, os policiais estavam treinando à paisana ali por perto, chegaram rapidamente e prenderam os homens em flagrante.”
O segundo episódio foi ainda mais trágico. Às vésperas de sua aposentadoria, Baiano foi procurado no ponto por um sujeito de Amparo, que perguntou de quem era o carro e se ele poderia levá-lo à Borda da Mata. “Eu ainda sugeri que fosse para lá de ônibus e mostrei a rodoviária, mas ele disse que tinha vindo comprar um trator e que o negócio não deu certo. Eu não sabia, mas ele tinha um 38 do tamanho de uma espingarda debaixo da blusa que amarrou na cintura. Só fui perceber que ele estava armado, quando chegamos ao bairro das Embuias, pra lá de Pouso Alegre. Ele me mandou descer do carro sem reagir, eu obedeci, mas também estava armado. Fazia três meses que eu tinha comprado o revólver na Casa Magnum, de Pouso Alegre. Estava tudo documentado. Eu desci, acionei um dispositivo que desligava o carro através de um chaveiro e, quando o homem percebeu que o veículo não iria dar a partida, desceu do carro e começou a atirar. Eu fiquei de lado para ele acertar meu braço, o homem deu seis tiros, enfiou a mão no bolso para recarregar e tirei a minha arma. Dei quatro tiros e acertei dois. Agradeço a Deus e ao doutor Romário, juiz de Direito. Uma doutora ainda tentou desclassificar a minha tese, mas não conseguiu. Foi legítima defesa. Agradeço aos policiais, às autoridades e a todas as pessoas que me apoiaram.”
Hoje, Lourival é seresteiro e já se apresentou no cinema, no asilo, na Associação José do Patrocínio e em diversos pontos da cidade. “Até na beira do rio nós já tocamos! Somos eu, beija-flor, o pirulito e o tenente Ribeiro. Gosto muito de música e já fiz algumas composições no estilo brega. É uma das paixões que carrego! Também já trabalhei como locutor por 14 anos, na 104 FM.”
(Carlos Romero Carneiro)

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