Fargo, uma comédia de erros

(Por Emerson Silva)

Fargo completa 30 anos de seu lançamento neste mês. O filme chegou aos cinemas dos Estados Unidos em 8 de março de 1996, de forma limitada e, em 5 de abril, para todo o país. Estreou no Brasil em 26 de julho do mesmo ano.
O filme se passa em Dakota do Norte, em meio a pessoas comuns, imperfeitas e contraditórias. Surge Marge, interpretada por Frances McDormand, grávida, gentil, cuidadosa e absolutamente perspicaz. Sua força vem da clareza moral, da empatia e de uma inteligência que opera em silêncio. Ela é uma das personagens mais completas e admiradas da história do cinema, contraponto à masculinidade caótica que move os crimes ao seu redor.
E é esse contraste, a pureza tranquila de Marge e a mediocridade dos criminosos, que revela a moral de Fargo. O mal raramente nasce da monstruosidade. Ele nasce do comum, da ganância e covardia. O sequestro malsucedido é fruto do desespero de um homem incapaz de lidar com sua própria insignificância.
A descrição da condição humana, realizada com a delicadeza gélida e humor ácido dos irmãos Coen, transformam esse caos humano em uma comédia de erros. Traços cômicos são desconfortáveis, porque nascem da constatação de que as pessoas agem sem compreender o peso de suas decisões.
O longa se tornou um marco do cinema por subverter e remodelar o gênero policial e ganhou uma série homônima que estreou em 2014, herdando a combinação única de violência e banalidade trágica.
Algumas curiosidades presentes nas entrelinhas aumentam o absurdo dos fatos. Nos créditos iniciais temos a afirmação de que o filme é baseado em uma história real. Nos créditos finais o ator que interpreta Victim in Field é identificado com um símbolo utilizado pelo cantor Prince. E isso abre um dilema sobre o que é real e o que é ficção, convidando o público a desconfiar de tudo, inclusive do próprio filme.

SEM COMENTÁRIOS

DEIXE UMA RESPOSTA