Na chamada “República do Café com Leite”, as lideranças de São Paulo e Minas Gerais exerciam grande influência sobre a escolha dos presidentes. A aliança entre os dois estados se rompeu quando Washington Luís decidiu apoiar o paulista Júlio Prestes para sucedê-lo, contrariando a expectativa dos políticos mineiros. Minas então se aproximou do Rio Grande do Sul e apoiou Getúlio Vargas, derrotado por Prestes na eleição de março de 1930. Setores da oposição passaram a articular uma reação armada. Em julho, o assassinato de João Pessoa, candidato a vice na chapa de Vargas, deu novo impulso ao movimento. A revolta iniciada em outubro depôs Washington Luís, impediu a posse do presidente eleito e levou Vargas ao poder.
Santa-ritenses queriam revolta armada
Em Santa Rita do Sapucaí, a notícia do assassinato do paraibano ganhou as ruas. Uma reportagem publicada pelo Diário Nacional em 7 de agosto de 1930 conta que moradores se reuniram em comício, enviaram telegramas a lideranças políticas e defenderam uma reação armada. O jornal deu à manifestação um título controverso: “O povo de Santa Rita do Sapucahy quer a reacção pelas armas”. Segundo a notícia, o comício ocorreu no dia 4 de agosto e reuniu pessoas em homenagem a João Pessoa. Na ocasião, os oradores exaltaram a memória do político e conclamaram o público à reação armada. No encerramento, representantes de Pouso Alegre, Cachoeira, Santa Catarina (Natércia) e Bela Vista também se manifestaram. O correspondente descreveu um ambiente de entusiasmo pela causa que chamava de “democrática” e afirmou que a praça estava tomada. Essa é a descrição do jornal, feita em meio a uma cobertura abertamente favorável ao movimento.
Durante a manifestação, os presentes decidiram enviar telegramas a Antônio Carlos, em Belo Horizonte, e a Oswaldo Aranha, em Porto Alegre. O primeiro dizia que os signatários se colocavam à disposição para uma “luta inadiável” em reparação à morte de João Pessoa. A segunda mensagem também apresentava uma reação pelas armas como a solução defendida por seus autores. A reportagem relata ainda um episódio na agência telegráfica da cidade: o agente teria se recusado a transmitir os textos, alegando instruções para não deixar seguir telegramas daquele teor. Por isso, segundo o correspondente, as mensagens foram encaminhadas ao próprio jornal, para que chegassem aos destinatários.
A mobilização em Santa Rita não se limitou ao comício. Na mesma página, sob o título “As exéquias por alma de João Pessoa”, o Diário Nacional informa que uma missa foi celebrada na cidade no dia 2 de agosto, a pedido do Comitê Liberal. A igreja, de acordo com a notícia, ficou lotada. A celebração teve a participação de monsenhor Calazans e do padre José Eugênio Faria, seu coadjutor.
Ao preservar nomes, datas, mensagens e até a notícia da recusa na agência telegráfica, o jornal permite enxergar Santa Rita do Sapucaí dentro de um episódio que costuma ser contado a partir das grandes capitais. Naqueles dias de 1930, a crise política nacional também era discutida e vivida nas ruas da cidade.
Quem foi João Pessoa?
João Pessoa era governador da Paraíba e havia concorrido a vice-presidente na chapa de Getúlio Vargas pela Aliança Liberal, formada em oposição ao candidato governista Júlio Prestes. Depois da derrota eleitoral, foi assassinado em Recife, em 26 de julho de 1930. O crime ocorreu em meio a conflitos pessoais (e até passionais), mas sua morte foi apresentada pelos aliados como símbolo da violência que atribuíam aos adversários. A comoção deu novo impulso ao movimento que, em outubro, derrubou o governo de Washington Luís e levou Vargas ao poder. Minas Gerais integrava a Aliança Liberal, e a disputa mobilizou moradores de Santa Rita do Sapucaí. Na cidade, um comitê organizou homenagens a João Pessoa, enquanto participantes de um comício defenderam a reação armada e enviaram telegramas a lideranças do movimento. Em pouco tempo, estas mesmas pessoas seriam perseguidas por Getúlio por conta de suas motivações políticas.

































