A viagem seguia normalmente quando a composição perdeu os trilhos. Em poucos instantes, vagões foram lançados contra um barranco, passageiros ficaram presos entre os destroços e o desespero tomou conta da ferrovia. O grave acidente, ocorrido em março de 1913 na linha da Rede Sul-Mineira, repercutiu em toda a região e mobilizou moradores de Santa Rita do Sapucaí.
O desastre, registrado pelo jornal Correio Paulistano de 19 de março de 1913, ocorreu no trecho entre Pouso Alegre e Santa Rita. Segundo a reportagem publicada na época, o trem havia partido de Soledade às 9h40min quando ocorreu o descarrilamento. A locomotiva e a parte dianteira da composição permaneceram sobre os trilhos, mas os vagões foram lançados para fora da linha. O impacto foi tão violento que um carro coletor utilizado para o transporte de animais ficou completamente destruído.
Um dos vagões de segunda classe teve destino ainda pior.
Arremessado contra um barranco, acabou parcialmente soterrado. Outros vagões tiveram janelas arrancadas e vidros estilhaçados. O cenário descrito era de caos absoluto.
Relatos da época informam que duas pessoas morreram no acidente. Uma das vítimas era um comerciante turco que viajava no trem. A identidade da segunda vítima não havia sido confirmada quando a notícia foi enviada à imprensa. Diversos passageiros ficaram feridos, alguns deles com lesões graves.
Entre os sobreviventes estavam figuras conhecidas da região, como os médicos Dr. José Pinto de Carvalho e Coutinho, que sofreram apenas ferimentos leves e puderam auxiliar no atendimento dos passageiros.
A notícia do descarrilamento espalhou-se pela cidade e a repercussão foi imediata. Segundo o jornal da época, mais de cem pessoas embarcaram em um comboio que passava pela cidade e seguiram para o local do acidente. O clima era de grande comoção e indignação, a ponto de alguns passageiros quebrarem vidros das janelas dos vagões durante o trajeto até a área do desastre.
O jornal destacou a atuação do Sr. Eugênio Conso, proprietário de um restaurante em Itajubá. Segundo a reportagem, ele protagonizou um ato de bravura ao salvar uma criança que havia sido lançada na água durante o acidente e continuou ajudando no resgate. Seu heroismo foi citado como exemplo de coragem em meio ao desespero que tomou conta do local.
Passados mais de 110 anos, quase ninguém em Santa Rita do Sapucaí se lembra daquele acidente. As locomotivas desapareceram, os trilhos foram retirados e a ferrovia deixou de fazer parte da rotina da população. Entretanto, os jornais preservaram a memória de um episódio que mobilizou a região e revelou tanto a vulnerabilidade do transporte ferroviário quanto a capacidade de solidariedade da população.

































