Até o final da década de 1950, Santa Rita do Sapucaí era, como tantas outras cidades do interior, um município de economia essencialmente agrária. A vida girava em torno da lavoura, do comércio local e de poucas alternativas profissionais. Para os jovens, o futuro era previsível: ou permaneciam na cidade com oportunidades limitadas, ou partiam em busca de algo maior em centros urbanos.
Foi nesse cenário que surgiu uma das iniciativas mais transformadoras da história do município: a criação da Escola Técnica de Eletrônica “Francisco Moreira da Costa”, em 1959, idealizada por Luzia Rennó Moreira. Desde sua origem, ela foi também um projeto social e é justamente isso que explica o impacto profundo que teve sobre Santa Rita.
Um projeto coletivo para transformar uma realidade limitada
A criação da ETE não foi um ato isolado, mas um movimento coletivo que envolveu lideranças locais, a Igreja e a sociedade civil. Em 1958, reuniões promovidas pela Fundação Educandário Santarritense discutiam como Sinhá Moreira poderia ser amparada na implantação de uma escola média de eletrônica na cidade, algo completamente inovador para a época.
As atas dessas assembleias revelam o tamanho da ousadia: doações de terrenos, articulação com o Ministério da Educação e a mobilização de figuras locais para viabilizar a iniciativa. A própria Sinhá Moreira não apenas idealizou o projeto, mas destinou patrimônio pessoal para torná-lo possível.
O Educandário Santarritense, também criado por ela, teve papel decisivo nesse processo, oferecendo áreas e estruturando a base institucional da nova escola. Essa relação próxima entre as duas instituições foi fundamental nos primeiros anos e evidencia que a ETE nasceu como um empreendimento comunitário, não apenas educacional.

Educação como inclusão: o DNA social da ETE
Desde o início, a ETE foi concebida para democratizar oportunidades. Em um período em que o acesso ao ensino técnico era extremamente restrito, a escola abriu suas portas para jovens de diferentes origens, inclusive de outros países da América Latina, o que demonstra seu alcance já nas primeiras décadas .
Ainda hoje, tal compromisso permanece vivo como nos primeiros tempos: cerca de 70% dos alunos estudam com bolsas de 100%, por meio de programas de inclusão educacional promovidos pela própria instituição. Não se trata de um detalhe, mas da continuidade direta do projeto social idealizado por Sinhá Moreira.
Mais do que formar mão de obra, a ETE moldou trajetórias. Jovens que antes teriam que deixar a cidade passaram a encontrar ali uma possibilidade concreta de ascensão social. Muitos deles teriam suas vidas transformadas por um conhecimento inovador e chegariam a se tornar empresários reconhecidos dentro e fora do país.
A presença jesuíta: formação técnica e humana
Outro elemento central no caráter social da ETE foi a atuação dos padres jesuítas na comunidade, exercendo o sacerdócio ou oferecendo aulas práticas. Eles não apenas administraram e lecionaram um projeto gradioso, mas se integraram profundamente à vida local. Figuras como o padre Jaime Fernández, ligado aos laboratórios da escola, e o padre Motoyasu Furusawa sempre foram presença constante na comunidade e simbolizam este espírito de integração.
Além disso, os jesuítas promoveram ações sociais concretas, como campanhas de arrecadação de alimentos (caso do SolidariETE) e atividades educacionais em escolas públicas. A ETE, assim, consolidou-se como uma instituição que formava não apenas técnicos, mas cidadãos.
Berço do ensino tecnológico em todos os níveis
A influência da ETE não parou no ensino técnico. Ela foi fundamental para a criação do Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel), em 1965, cuja primeira estrutura funcionou em salas e laboratórios da própria escola.
Nos primeiros anos, o Inatel não tinha sede própria. Suas aulas aconteciam na ETE e até em instalações improvisadas, como o antigo Tiro de Guerra. Essa proximidade evidencia que o desenvolvimento do ensino superior tecnológico em Santa Rita nasceu diretamente da base construída pela ETE.

Dos laboratórios ao desenvolvimento econômico
O impacto social da ETE rapidamente transbordou para o campo econômico. Ao formar profissionais qualificados em uma área praticamente inexistente na região, a escola criou as bases para um novo modelo de desenvolvimento.
Um dos exemplos mais emblemáticos é o surgimento da Linear Equipamentos Eletrônicos, considerada a primeira empresa de tecnologia da cidade. Fundada em 1977, dentro das dependências da escola, a empresa nasceu da iniciativa de ex-alunos e professores que encontraram ali não apenas formação, mas apoio para empreender.
O relato de um dos fundadores deixa claro o ambiente da época: alunos que estudavam, davam aulas e, ao mesmo tempo, desenvolviam tecnologia dentro do campus. O incentivo de diretores como o padre Raul Laranjeira de Mendonça foi decisivo para transformar ideias em negócios. Tal movimento deu origem ao que hoje é conhecido como Vale da Eletrônica, ecossistema com mais de 170 empresas, faturamento bilionário e relevância nacional. E tudo começou dentro da ETE.
Abertura à comunidade
Ao longo de sua história, a ETE nunca se isolou da cidade e seu campus sempre foi um espaço aberto à comunidade. Desde que foi criado, o Auditório Sinhá Moreira tornou-se palco de apresentações culturais, formaturas, festivais e eventos que marcaram gerações, como era desejo de Sinhá Moreira.
Mais recentemente, a escola passou a sediar boa parte das atividades do HackTown, maior evento de criatividade e inovação da América Latina.Além disso, iniciativas como o Conexão Esportiva reforçam o papel social da instituição. O projeto atende centenas de crianças e adolescentes com atividades esportivas, promovendo inclusão, disciplina e convivência, muitas vezes alcançando bairros mais afastados e populações em situação de vulnerabilidade.
Um legado que vai além da tecnologia
Ao olhar para a trajetória da ETE FMC, fica evidente que seu maior legado não é apenas técnico ou econômico. Ela mudou o destino de Santa Rita do Sapucaí porque atacou a raiz do problema: a falta de oportunidades. Criou acesso, formou pessoas, incentivou o empreendedorismo, integrou-se à comunidade e manteve, ao longo de décadas, um compromisso social que raramente se vê em instituições educacionais. Se hoje a cidade é conhecida como o Vale da Eletrônica, começou com uma escola e, sobretudo, com um projeto social pensado por Luzia Rennó Moreira e abraçado pelos sonhos de uma comunidade.


































