(Carlos Romero Carneiro)
Uma fotografia cedida pela leitora Elizabeth Longuinho nos ajudou a desvendar uma tragédia acontecida em nossa cidade. Leia a seguir.
O acidente
O sol das 9h45min tentava aplacar o frio do descampado ao redor do campo, naquele 13 de agosto de 1950. Era domingo. o vento soprava levantando redemoinhos de poeira na beira da pista, enquanto moradores se aglomeravam para assistir à partida dos aviões do Aeroclube de Minas Gerais. Entre eles estava o Fairchild PT-19 PP-GEL, reluzente, de pintura clara e fuselagem delgada, pronto para decolar. O ruído do motor Ranger de 200 cavalos de potência preenchia o ar com um som forte e intermitente.
O avião correu pela pista de terra e se ergueu com leveza, subindo em curva suave. Não se sabe quem pilotava naquele momento. Carlos Ferreira Gonçalves, membro de uma família poderosa de Belo Horizonte tinha como companheiro de voo Agostinho Tolentino Neto, natural de Espinosa, no Norte de Minas. O PP-GEL girou sobre o campo e iniciou uma passagem baixa, talvez como despedida para os curiosos que acompanhavam a cena incomum aos olhos santa-ritenses. O voo seguiu estável, mas baixo demais. Um pequeno erro de cálculo, talvez uma distração, bastou para mudar o destino dos dois tripulantes.
O motor emitiu um som diferente, em variação de rotação curta e limitada. O avião manteve a linha por alguns metros, até que a asa esquerda tocou o teto de um automóvel estacionado à beira da pista. O impacto foi rápido, quase abafado. A aeronave girou de lado, perdeu sustentação e desabou sobre o pasto.
Houve um baque surdo, seco, seguido de silêncio. A poeira se ergueu em nuvem densa. Quando se dissipou, o Fairchild PT-19 estava de bruços, com o nariz levemente enterrado no solo e uma de asas retorcida.
Os primeiros a chegar foram lavradores e curiosos que haviam assistido à decolagem. Corriam pelo matagal, alguns em prantos, outros incrédulos. Encontraram o avião tombado no barranco, ainda quente, e com o cheiro de combustível misturado à poeira.
Os corpos de Carlos e Agostinho estavam entre os destroços. Foram cobertos com uma manta trazida às pressas. O local, antes barulhento e festivo, mergulhou num silêncio pesado. Por um instante, o vento passou, balançando a lona escura que cobria parte da fuselagem, o último movimento de um avião que, minutos antes, ganhava o céu com elegância.

O retratista
Assim que a notícia chegou à cidade, avisaram o retratista. “Um avião caiu perto do campo!”, gritou alguém em frente ao Bife de Ouro.
A estrada de terra que levava ao local do acidente era estreita e ladeada por pastagens. Ao chegar, o fotógrafo encontrou uma cena que misturava espanto e curiosidade. O homem desceu do carro, correu até o local da tragédia, escolheu um bom ângulo e se preparou para congelar a cena. O sol batia forte, lançando sombras nítidas sobre o capim ralo e o metal amassado. Homens de chapéu cercavam o avião em silêncio, alguns de braços cruzados, outros inclinados sobre a fuselagem, observando tudo de perto. Um senhor permanecia em pé diante da aeronave, como se posasse para a fotografia, enquanto outros sujeitos espiavam sob o cockpit.
O fotógrafo se inclinou ligeiramente e enquadrou a cena cuidando para que a fuselagem e a cauda com o número 25 ficassem visíveis. Ao pressionar o obturador, imortalizou o instante em película. Era um tipo de imagem que não pedia legenda. Falava sozinha: o avião abatido, o olhar atordoado dos homens ao redor, o capim ressecado e o instante guardado entre o espanto e a tristeza.
As vítimas que tripulavam o Fairchild PT-19 não eram desconhecidas. Carlos Ferreira Gonçalves era de Belo Horizonte e pertencia a uma família tradicional da capital mineira. O sobrenome, à época, figurava entre comerciantes e empresários de prestígio da cidade. Jovem conhecido por seu entusiasmo com a aviação civil, fazia parte do grupo de pilotos formados pelo Aeroclube de Minas Gerais, que mantinha intensa atividade de treinamento e demonstração em todo o estado. Ao seu lado viajava Agostinho Tolentino Neto, natural de Espinosa, no norte do estado. Filho de uma região distante e de hábitos sertanejos, representava a nova geração de mineiros atraídos pelo fascínio do voo. Coincidência ou não, a rua que hoje leva o seu nome, fica a menos de 10 minutos do campo de aviação da pequena cidade.
Quando os boatos sobre o acidente se espalharam, autoridades se deslocaram ao campo de aviação. O resgate foi improvisado, feito com auxílio de caminhonetes e automóveis particulares. Sob o sol, os corpos dos dois pilotos foram removidos.
Ao tomar conhecimento do acontecido, o diretor do Banco Financial, de Belo Horizonte, disponibilizou uma aeronave particular para o traslado dos corpos à capital. O gesto causou comoção e chamou atenção dos jornais pois acidentes aéreos eram incomuns naqueles tempos.
Chegando ao destino, os corpos de Carlos Ferreira Gonçalves e Agostinho Tolentino Neto foram sepultados com presença de amigos, familiares e colegas do aeroclube.
Cirscuntâncias ainda não esclarecidas
Clique para acessar o registro do acidente
O Fairchild PT-19 “Cornell” era um avião de instrução fabricado nos Estados Unidos, durante a Segunda Guerra Mundial. Movido por um motor Ranger de 200 hp, possuía dois assentos em tandem, asa baixa e trem de pouso fixo carenado. No Brasil, dezenas desses aviões foram cedidos pela Força Aérea Brasileira a aeroclubes civis, no final dos anos 1940, para o treinamento de novos pilotos, parte do esforço nacional de difusão da aviação civil. O exemplar acidentado, número de série 3FG-229, havia sido incorporado ao Aeroclube de Minas Gerais, pouco antes do acidente e estava em operação regular de instrução e demonstração.
As circunstâncias do acidente nunca foram oficialmente esclarecidas. Tudo indica que foi resultado de uma manobra em baixa altitude, agravada por um erro de cálculo ou perda momentânea de sustentação.

Tragédia ainda é lembrada
Décadas depois, quando a fotografia do acidente foi publicada em nossa página na internet, a imagem chamou a atenção da leitora Seila Brusamolin. Ao reconhecê-la, ela comentou que o acidente havia ocorrido no dia 15 de agosto (o que contrariava a notícia que apontava 13 de agosto como a data da tragédia). “Foi no dia em que minha saudosa amiga Almerinda nasceu! A mãe dela, minha madrinha, e minha mãe, sempre contavam que foi um triste acontecimento naquele dia”, recordou. O depoimento de Seila mostra como a tragédia permaneceu viva na lembrança dos santa-ritenses por muitas décadas e como a notícia foi transmitida, de geração em geração, e imortalizada por uma imagem.

































