Antes de trabalhar em teatros franceses e lecionar na Universidade Paris 8, Rita Grillo começou no grupo BandAid, aos doze anos. A formação em jornalismo não afastou o desejo de ser atriz, mas sua entrada na profissão exigiu buscar cursos, fazer contatos e enfrentar dificuldades por não ter cursado artes cênicas. De volta ao Brasil, ela revisita esse percurso e os encontros que marcaram seu trabalho.
Como nasceu o seu desejo de ser atriz?
Eu sempre quis ser atriz. Desde os doze anos já pensava nisso e integrei o grupo de teatro BandAid, em Santa Rita. Frequentei por algum tempo e atuei ao lado do Janilton e do Jaider. Naquela época, a minha mãe não era muito favorável e acabei indo para São Paulo fazer faculdade de jornalismo. Lá, comecei a buscar cursos e a conhecer pessoas que me ajudaram a me integrar no teatro.
Ter escolhido o jornalismo, em vez de artes cênicas, trouxe dificuldades para sua entrada no meio teatral?
O fato de não ter optado pelo curso de artes cênicas pesou em algum momento da minha vida. Não ter formação fez com que faltasse aquela validação que precisava no início e me faltou uma rede de contatos com pessoas que exerciam a atividade. Como todas as profissões, quanto maior a rede de contatos, maiores são as chances de se conseguir trabalho.
O que a experiência de estudar na França representou para para a sua formação?
Ao vinte e três anos, após concluir a faculdade de jornalismo, fui fazer mestrado na França. Estudei na Sorbonne Nouvelle, que é a Paris 3. Este período foi muito importante na minha vida, em diversas áreas. Poder viajar, sair do país e absorver cultura foi essencial. Ampliei os meus conhecimentos e aprimorei o modo de fazer teatro.
Como foi o encontro com o trabalho de Eugenio Barba?
Tive a oportunidade de ir para a Polônia, em Wroclaw, local onde há o Instituto Grotowski. O Grotowski foi um importante diretor polonês do século XX que produziu uma inovadora pesquisa de teatro físico. Lá eu tive a oportunidade de estudar com uma companhia dinamarquesa chamada Odin Teatret, dirigida pelo italiano Eugenio Barba. As pesquisas desse diretor abrangem não somente teatro físico como também o teatro antropológico. Hoje este tipo de teatro pode ser associado à apropriação cultural, o que não concordo. Vejo o trabalho do Barba como uma pesquisa real, dentro da Europa, para conhecer outras linguagens e modos não europeus de se fazer teatro. Este grupo estudava sobre artistas do Japão, Bali, Índia, China, do continente africano e de outros países. Tive a oportunidade de estudar com estas pessoas, o que delineou a forma como eu quis trabalhar depois. Eu era bem jovem, mas estas experiências me marcaram muito.

Quando voltou ao Brasil, você já se sentia mais segura e integrada ao meio teatral?
Eu vivi na França por cerca de dois anos e meio e, nesse período, estudei muito e absorvi todas estas referências. Quando voltei ao Brasil, em 2006, tendo estudado com Eugenio Barba, Roberta Carreri, Zygmunt Molik e Yoshi Oida, aquela dificuldade que tive no início por não ter uma formação acadêmica inicial se dissolveu. Já estava, de alguma maneira, integrada ao meio teatral.
Quais caminhos se abriram a partir desse retorno?
O meu percurso, dali em diante, assumiu três caminhos paralelos. Comecei a integrar grupos de pesquisa teatral, produzindo estudos sobre teatro físico; me dediquei à pedagogia do teatro e comecei a dar aulas em uma escola profissionalizante; e acabei trilhando um caminho de produções internacionais. Como eu falava francês e tinha adquirido experiência fora, desenvolvi uma relação com o Instituto Francês e com o Consulado. Isso me possibilitou fazer assistência de direção para uma importante diretora francesa que veio produzir um projeto por aqui. Tratava-se de um trabalho que envolvia muito dinheiro, atores reconhecidos e que me permitiu formar uma rede de contatos. Por dez anos, segui este caminho, com altos e baixos, parando para ter filho e porque fiquei doente, mas sempre circulando por estes três meios.
Como surgiu a oportunidade de trabalhar na Comédie-Française?
Como meu marido é francês, no ano de 2016 fizemos a escolha de nos mudarmos para a França para que nossos filhos tivessem uma vivência com aquela cultura que também era deles. Como eu tive a oportunidade de trabalhar no Brasil com uma societária da Comédie-Française, isso me abriu portas. A Comédie-Française é o teatro público do país. Trata-se da elite do teatro, que existe há muito séculos e que possui uma estrutura enorme e envolve grandes cenários, figurinos, acervos e um grupo de atores contratados. Eu já tinha trabalhado com esta diretora e tive a sorte de realizar uma assistência de direção naquela companhia.
Além da Comédie-Française, com quem você trabalhou?
Trabalhei com Catherine Marnas, renomada diretora francesa com quem já havia atuado no Brasil e que havia se tornado diretora de um centro dramático nacional em Bordeaux. Em paralelo a estes projetos, comecei a lecionar em uma escola profissionalizante de Paris e fiz um mestrado na Universidade de Paris 8 sobre uma metodologia teatral que criei com base numa série de procedimentos de criação com atrizes e atores. Nesse período, também criei, graças a subvenções universitárias, dois espetáculos solo. Um deles era um texto escrito por uma dramaturga argentina e um outro, também em 2019, chamado “Apneia” (na tradução para o português), um manifesto cênico sobre a democracia no Brasil. Este espetáculo teve muita visibilidade e acabou sendo programado em uma sala de Paris e reprogramado em um festival de teatro de Toulose e no TNBA (Teatro Nacional de Bordeaux), logo antes da pandemia. Em paralelo, comecei o meu mestrado e a dar aulas no conservatório municipal de Paris.
Como foi o convite para lecionar na Universidade Paris 8?
Durante a pandemia, defendi o meu mestrado e fui convidada pela Paris 8 a dar aulas para a graduação. Minhas orientadoras identificaram que eu tinha um percurso artístico e pedagógico de quase vinte anos, me convidaram a integrar o departamento pedagógico e a lecionar na Universidade. Comecei no segundo semestre de 2020 e dei aulas até 2023, quando voltei ao Brasil. Atualmente, vivo em Bertioga e desenvolvo diversos projetos teatrais.
Para conhecer os projetos atuais de Rita Grillo, acesse as páginas no Instagram:
@teatro.estilhacos
@bonecarussa.ciadeteatro
@lab_de_teatro_do_litoral

































