Em 23 de outubro de 1955, a residência de Luzia Rennó Moreira foi palco de um encontro que mudaria a trajetória educacional de nossa cidade. Ali nasceu o Educandário Santarritense, fundação destinada ao amparo, à educação e à orientação profissional de meninas em situação de vulnerabilidade. A iniciativa, celebrada por representantes de diferentes segmentos, consolidou um desejo que circulava há anos.
A gênese do projeto remonta a 5 de dezembro de 1945, quando foi adquirido o antigo prédio — então em ruínas — da antiga Santa Casa, com seu terreno e benfeitorias. O valor de Cr$50.000,00 foi viabilizado por doação do Cel. Francisco Moreira da Costa, pai de Sinhá Moreira, registro que demonstra como filantropia e visão comunitária já sustentavam o sonho muito antes de ele ganhar forma institucional.
A Fundação Educandário Santarritense começou com uma diretoria provisória. A governança previa presidente, vice, dois secretários e tesoureiro, eleições bienais, Conselho Fiscal e patrimônio constituído por aquisições, doações, legados e eventuais subvenções públicas. Em votação unânime, Luzia Rennó Moreira foi mantida na presidência, ao lado de Antônio de Cássia Filho (vice), Nélio Cleto Duarte e Farid Abrahão Kallás (secretários) e Martiniano Ribeiro (tesoureiro).

Em 1956, Luzia renunciou à presidência — comprometendo-se a continuar colaborando com o projeto — e foi aclamada Presidente de Honra. Assumiu a liderança o Pe. José Carneiro Pinto, em clima de continuidade.
No ano seguinte, a direção discutiu a pavimentação da rua de acesso ao terreno da antiga Santa Casa e iniciou um processo de revisão estatutária para ampliar o impacto comunitário da Fundação, sobretudo no campo educacional. O passo decisivo veio em 29 de dezembro: com a diretoria reeleita, a assembleia autorizou a aquisição do Instituto Moderno de Educação e Ensino (Ginásio), aprovou a contratação de financiamentos e deu poderes para usar os terrenos do Educandário na implantação de escolas superiores, escola técnica, escola de comércio e seminário menor. Também foram autorizadas negociações para permutar ou adquirir o prédio do Seminário São José, bem como a aquisição da Escola Técnica de Comércio Dr. Delfim Moreira, fundada em 1951 por iniciativa privada, e do prédio da Escola Nossa Senhora de Fátima.
Em pouco mais de dois anos, Santa Rita do Sapucaí transformou um ideal antigo em projeto estruturado, com governança, transparência e metas concretas. O Educandário Santarritense nasceu para proteger e formar meninas em condições de vulnerabilidade e, rapidamente, alargou os seus horizontes, colocando a educação no centro de uma visão de desenvolvimento local. Tal período evidencia algo raro: quando filantropia, técnica e decisão coletiva caminham juntas, a cidade aprende, amadurece e projeta um futuro mais amplo do que o imaginado no primeiro encontro, promovido na residência de Sinhá Moreira.
Em março de 1958, o Educandário Santarritense promoveu uma reforma estatutária que ampliou os horizontes de seus benfeitores. A instituição — criada com vocação assistencial — passou a ter, por missão formal, manter do ensino infantil ao superior, incluindo formação profissional, técnica e agrícola; criar creches, centros de puericultura e merenda escolar; oferecer serviços de saúde; instituir bolsas de estudo; formar e orientar menores e seminaristas pobres; e até fomentar radiodifusão, televisão e teatro amador. Na governança, reafirmou eleições anuais no último domingo de dezembro, voto secreto e conselho fiscal. No quadro social, instituiu categorias de sócios efetivos e beneméritos, com joia e anuidade para novos membros — um desenho que combinava capilaridade comunitária e sustentabilidade.
Outubro daquele ano também seria um divisor de águas na evolução educacional brasileira: foi criada, por iniciativa de Sinhá Moreira, a Fundação Dona Mindoca Rennó Moreira para instalar e sustentar uma Escola Técnica de Eletrônica — primeira instituição do país em seu segmento. Ao reconhecer a envergadura da obra, o Educandário autorizou a doação de metade do antigo terreno da Santa Casa, condicionada ao êxito do empreendimento.
A engenharia institucional da ETE FMC evoluiu rapidamente e, em dezembro de 1958, tratativas avançadas com o Ministério da Educação estabeleceram a exigência de ampliar a área destinada à escola para 48.000 m². O arranjo foi costurado com os seguintes movimentos: o Educandário doaria 14.628,20 m² adicionais e Sinhá Moreira se comprometeria a doar 19.731,80 m² de sua propriedade, em um local conhecido como Nossa Senhora de Fátima. No mesmo ato, os sócios autorizaram a assinatura da escritura de doação — um gesto administrativo que traduzia visão estratégica: ajudar a fixar a eletrônica como vocação formativa e produtiva de Santa Rita do Sapucaí. A pedra fundamental da Escola de Eletrônica até chegou a ser lançada no terreno, mas a instituição acabou ocupando um terreno mais amplo e com maiores possibilidades de expansão.

Entre 1958 e 1959, amadureceu a ideia de supervisão e presença direta da Igreja na condução do projeto educacional do Educandário. As alterações estatutárias consolidaram a fundação como obra assistencial organizada e supervisionada pela Paróquia e definiram que, em caso de extinção, os bens seriam incorporados à Obra Social de Assistência Paroquial.
O arranjo teve um capítulo decisivo em 1º de janeiro de 1960: graças à articulação política local, a Prefeitura doou ao Educandário os prédios e terrenos do Colégio do Instituto Moderno (no término da Av. João de Camargo), com isenção de impostos e taxas para formalizar a escritura.
As eleições periódicas renovaram ou reconduziram quadros — com o Pe. José Carneiro Pinto à frente e figuras como o Dr. Elpídio Costa, Farid Abrahão Kallás, Antônio Dias Ferraz e Benedito Rodrigues Garcia em funções executivas.
Em 1962, a Assembleia voltou a discutir o modelo de gestão do ginásio: ordem religiosa ou transformação em colégio estadual. Paralelamente, a Escola de Comércio ganhou direção e equipe, com a participação de personalidades como João Cellet, Antônio Américo Junqueira, Francisco Magalhães e Ivon Luiz Pinto. Um ano depois, as contas foram aprovadas, a diretoria reeleita e o Educandário encerrou o quinquênio com algo maior do que um portfólio de bens: um sistema educacional em formação, ancorado em parcerias, governança ativa e instrumentos jurídicos que garantiriam a sua perenidade.
Entre 1958 e 1963, Santa Rita do Sapucaí transformou o Educandário Santarritense em espinha dorsal de um projeto de cidade:
– Missão expandida (da assistência à educação integral e profissional);
– Ativos estratégicos (colégios, terrenos, doações e convênios);
– Alianças institucionais (Paróquia, ordens religiosas, Prefeitura e comunidade doadora);
– Visão estratégica (apoio à Escola Técnica de Eletrônica, consolidando a sua função de catalisadora de vocações).
Mais do que atas, encontros e deliberações, ficou uma mensagem daqueles tempos: quando a comunidade organiza a sua filantropia, estrutura os estatutos e chama a educação pelo nome, a cidade aprende a crescer de forma prática e sustentável. Aquele foi um período em que Santa Rita do Sapucaí não apenas amparou seus jovens; aprendeu a projetar o futuro.

Entre 1965 e 1969, o Educandário Santarritense viveu um capítulo decisivo. Tudo começou com um duro diagnóstico: a Escola Técnica de Comércio operava “desmembrada”, com turmas espalhadas por diferentes prédios, o que elevava os custos e dificultava o aprendizado dos alunos. Professores eram mal remunerados, havia carência de recursos e a continuidade das parcerias firmadas estava ameaçada.
Ao mesmo tempo, nascia o Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel), que precisava de uma sede, e um dilema dividiu lideranças do Educandário: cobrar aluguel para aliviar o caixa da escola ou ceder o espaço para viabilizar a instalação de uma instituição de ensino superior, capaz de projetar Santa Rita nacionalmente. Prevaleceu a leitura estratégica, com um convênio: cessão por dois anos, renováveis por mais dois se o Inatel seguisse sem financiamento robusto, com contrapartidas claras. A nova instituição seria responsável pela manutenção, pagamento de impostos e realização de reparos, sem direito a indenização por benfeitorias feitas e com o uso noturno das salas destinado à ETC, caso fosse necessário.

Houve quem defendesse receita imediata e quem enxergasse a cessão como investimento no futuro. No calor do debate, o diretor da Escola de Comércio, João Cellet, chegou a sinalizar a impossibilidade de manter a escola nas condições existentes, em um dos momentos mais críticos da história da instituição. A mobilização de colegas e lideranças o trouxe de volta, e o Educandário abriu várias frentes: perdão de débitos de associados para garantir deliberações, comissões de negociação com o Inatel e articulação política por verbas.
Daí em diante, o verbo foi “construir”. Em 1966, as contas da obra da futura sede da Escola Técnica de Comércio foram aprovadas e autorizou-se novo empréstimo para seguir o canteiro — com um detalhe que diz muito sobre o espírito da época: os próprios dirigentes se ofereceram como avalistas. Circularam propostas de venda do imóvel ocupado pelo Inatel para financiar a construção, com diferentes formatos de preço e pagamento, mas sem consenso.
Em 1967, a escola apresentou balancete, listou doações recebidas e expôs as dores da travessia: parte do orçamento de manutenção fora drenada para a obra, atrasando compromissos. Era preciso formalizar vínculos com os professores e reorganizar a secretaria da escola. Ainda assim, houve a inauguração da sede da Escola Técnica de Comércio Dr. Delfim Moreira, encerrando anos de instabilidade física. Naquele mesmo ano, a entidade adequou o seu estatuto para obter reconhecimento de utilidade pública federal, incluindo cláusula que vedava qualquer distribuição de bens ou vantagens a dirigentes e associados.

No início de 1968, a direção do educandário decidiu escalar mais um degrau e começaram os projetos para criação da Faculdade de Administração de Empresas “Prof. Bilac Pinto”. A justificativa, em uma cidade que já abrigava uma escola técnica de eletrônica e o próprio Inatel, era de que havia demanda por gestores para sustentar o desenvolvimento econômico local, em uma antevisão do que se tornaria o Vale da Eletrônica, nas décadas seguintes. Uma comissão assumiu a missão de buscar autorização federal, planejar a implantação e mobilizar as forças mais atuantes do município.
Os relatórios de 1968 e 1969 traduzem a realidade: anuidades populares (a maioria dos estudantes era de trabalhadores) não cobriam as despesas; aumentos salariais exigiam criatividade orçamentária; créditos a receber precisavam virar ativos estáveis ou pagar dívidas históricas com benfeitores e a paróquia. A entidade também reordenou seu quadro social e confirmou lideranças que atravessariam aquele período: o pároco José Carneiro Pinto, o Dr. Delfim Rennó Moreira, o advogado Solon Siqueira Ribeiro, o administrador Francisco Ribeiro de Magalhães, além de nomes como João Cellet, Rubens Amaral Cunha, Astolfo Lemos Carneiro, José Portugal Rennó e outros.

Mas o que ficou daqueles anos? Um método de governança comunitária: quando faltava dinheiro, vinham rifas, doações e aval solidário. Quando faltava prédio, convênios eram firmados, estabelecendo cláusulas de salvaguarda Quando não havia consenso, multiplicavam-se comissões até surgir um novo caminho. O resultado foi mais do que a entrega de uma escola nova: foi a consolidação de um ecossistema educacional — com ensino técnico, formação comercial e projeto de ensino superior — que amarrou Santa Rita do Sapucaí à sua vocação contemporânea.
Entre choques e acordos, o Educandário transformou crise em alavanca e ajudou a semear uma ideia que moveria a cidade nas décadas seguintes: educação não é gasto — é a obra pública mais duradoura que uma comunidade pode construir.
No final da década de 1960, o Educandário já tinha consolidado duas experiências sólidas: a Escola Técnica de Comércio — que depois se transformaria no Colégio Tecnológico Delfim Moreira — e a parceria estratégica com o incipiente Inatel, a quem ofereceu apoio estrutural nos primeiros anos, mesmo com todas as dificuldades. Santa Rita do Sapucaí, cada vez mais identificada como “cidade-escola”, vivia um momento de ebulição.
Faltava, contudo, um degrau essencial para o Educandário: o ensino superior, capaz de preparar administradores e gestores para sustentar o crescimento regional e dar base ao novo ecossistema educacional e tecnológico. Sob a liderança firme do Padre José Carneiro Pinto, presidente da Fundação, o professor Francisco Ribeiro de Magalhães e o advogado Dr. Antônio Teixeira dos Santos ajudariam a compor a comissão responsável pelo encaminhamento do curso de administração junto ao MEC.
O resultado desse esforço coletivo veio em 12 de janeiro de 1971, quando o Ministério da Educação autorizou o funcionamento do curso de Administração de Empresas. A primeira turma iniciou suas aulas sob a direção do professor espanhol, Ramón Villar Paisal (1971–1982), que estruturou a jovem instituição e lhe deu forma acadêmica. Cinco anos depois, em 1976, Santa Rita celebrava a formatura da primeira turma de administradores na região e profissionais foram rapidamente absorvidos pelo mercado.

Se a Administração representava o passo natural de amadurecimento da cidade, o segundo movimento foi ainda mais promissor. Em 1978, sete anos após a autorização do MEC para o curso de Administração, a Fundação lançou o curso de Tecnólogo em Processamento de Dados. Sob a gestão de Paulo Capistrano de Alckmin (1982–1986), esta nova graduação foi consolidada e a primeira turma colou grau em 1982. Com a soma de Administração e Processamento de Dados, a faculdade ganhou identidade própria: FAI – Faculdade de Administração e Informática, nome pelo qual ficou muito conhecida.
Nos anos seguintes, a FAI viveu um ciclo de grande expansão. Em 1986, o professor Francisco Ribeiro de Magalhães assumiu brevemente a direção, seguido por Márcio Barbosa Magalhães (1987–1995), que implantou projetos de integração cultural e lançou, em 1986, a Semana da FAI, além da FAITEC, em 1989, que se tornaria marca registrada da instituição.
De 1995 a 2002, sob a liderança do professor José Cláudio Pereira, a faculdade criou o Núcleo de Pós-Graduação e se projetou nacionalmente. Aldo Ambrósio Morelli (2003–2010) deu continuidade ao projeto cultural de seu antecessor e foi também responsável por atravessar um período de reconstrução, após a enchente de 2000, conduzindo a expansão estrutural que modernizou o campus.

O retorno de José Cláudio Pereira (2011–2018) consolidou a internacionalização da FAI e sua ligação com a inovação. A atual gestão é conduzida pelo professor Alexandre Franco de Magalhães, com Cláudia Mesquita da Silva Gomes como vice-diretora. Juntos, enfrentaram os impactos da pandemia, ampliaram a atuação institucional — com a criação de cursos na área da saúde — e fortaleceram o vínculo com o Arranjo Produtivo Local.
Enquanto a FAI avançava no ensino superior, a antiga Escola Técnica de Comércio construía sua própria trajetória. Sob a liderança de Paulo Capistrano de Alckmin (1977–1987), surgiram os cursos CP1 e CP2, voltados à formação profissional. Em 1980, a instituição passou a se chamar Colégio Tecnológico Delfim Moreira, nome sugerido por Ramón Villar Paisal, unindo tradição e modernidade.

Em 1987, Darlene Vono Silva assumiu a direção, implantando o pré-escolar e as séries iniciais. Entre 1989 e 1990, Elza Adami (“Duze”) enfrentou o desafio da inflação, seguida por Creuza Leite de Souza (1990–1993), que conduziu a escola em um período turbulento com apoio da comunidade. De 1993 a 1996, Maiza Moreira promoveu modernização e vitalidade, enquanto Rosé Mary Bueno (1997–1998) acumulou a direção com a Secretaria de Educação, criando iniciativas como a oferta de refeições noturnas.
No retorno de Maiza Moreira (1999–2007), ao lado de Aparecida de Cássia e da supervisora Fátima Cecília Seguro de Carvalho, o colégio viveu uma fase de expansão estrutural e pedagógica. Fátima Cecília assumiu a direção entre 2007 e 2015, período marcado pela reabertura do curso de Contabilidade. Desde então, a direção está sob responsabilidade de Rita Helena Ribeiro Pivoto, com Raquel Tibães como vice-diretora, dando continuidade a uma trajetória que alia tradição educacional e inovação tecnológica.
Ao longo de sete décadas, a Fundação Educandário Santarritense construiu um percurso marcado pela excelência em educação e pela força da comunidade. No Colégio Tecnológico Delfim Moreira, ciência, cuidado e espiritualidade convivem em um ambiente inspirado por valores cristãos, mas de caráter ecumênico, que forma pessoas tecnicamente competentes e socialmente sensíveis.
O Berçário funciona como uma segunda casa, com rotina segura, cuidados de saúde e equipe afetuosa. A Educação Infantil valoriza identidade, autonomia e múltiplas linguagens, enquanto o Período Integral organiza jornadas equilibradas entre convivência, aprendizagem, descanso e brincadeiras. Do 1º ao 9º ano, a proposta integra conteúdos acadêmicos, temas sociais e iniciativas criativas. No Ensino Fundamental II e no Ensino Médio, a pesquisa, as tecnologias e a atitude investigativa fortalecem a autonomia intelectual e a conexão com a comunidade.

A formação técnica é marca histórica da instituição. O curso Técnico em Enfermagem prepara profissionais para atuar em diferentes áreas da saúde, enquanto o Técnico em Informática oferece formação completa, da manutenção de computadores ao desenvolvimento de sistemas. O colégio também promove inclusão com cursos como Informática para a Terceira Idade e Cuidador de Idosos.
Hoje, a FAI — Centro de Ensino Superior em Gestão, Tecnologia e Educação — é reconhecida nacionalmente por sua ousadia acadêmica, oferecendo cursos de graduação, pós-graduação e o Curso da Maturidade. Seu campus conta com salas multimídia, laboratórios de informática, laboratório multidisciplinar, espaço maker, brinquedoteca, laboratórios de anatomia e enfermagem, além de clínica-escola de psicologia.

Setenta anos após o encontro na casa de Sinhá Moreira, o Educandário Santarritense permanece como símbolo da capacidade de Santa Rita do Sapucaí de transformar ideal em ação. O que começou como um gesto de filantropia tornou-se um sistema educacional completo, do berçário à pós-graduação. Entre fé, ciência e comunidade, a instituição segue viva, formando gerações e reafirmando que a educação é a forma mais duradoura de amor que uma comunidade pode oferecer.
(Carlos Romero Carneiro)

































