Os desafios enfrentados para a criação do primeiro hospital de Santa Rita do Sapucaí

No fim da tarde de 23 de outubro de 1904, quando o relógio marcava quatro horas da tarde, Santa Rita do Sapucaí assistia ao início de uma de suas obras mais simbólicas. Em uma residência cedida pela família de Antônio Moreira da Costa, autoridades, lideranças locais e representantes da sociedade se reuniram para a bênção e o lançamento da Pedra Fundamental da futura Casa de Caridade. À frente da cerimônia estava Delfim Moreira da Costa, então secretário do Interior do governo de Francisco Salles, que abriu a sessão como presidente honorário. Ao seu lado, nomes que ajudariam a escrever os primeiros capítulos da instituição: o juiz de direito Martiniano Antônio de Barros, o agente executivo Francisco de Paula Souza e o presidente da comissão organizadora, João Cavalcanti de Albuquerque, responsável por conduzir o discurso inaugural.
A solenidade reuniu vozes de diferentes setores da sociedade santa-ritense. Falaram o juiz, em nome da magistratura; o médico Maximiano Octavio de Lemos; o comerciante José Luiz de Souza Menezes; o representante dos profissionais liberais, José de Oliveira Bastos; e o vigário Padre Carlos de Cerqueira, que deu o tom espiritual à obra.
A Pedra Fundamental — ofertada pelo Capitão Joaquim Mendes da Silva e o estandarte doado por Guilhermina Pereira da Silva foram abençoados antes que a ata fosse assinada e depositada, junto a documentos, em uma urna fixada ao marco inaugural. Mais que um gesto simbólico, aquele momento consolidava um pacto: o de erguer, em Santa Rita, um espaço dedicado aos enfermos e desamparados.
Ao final da cerimônia, o apelo era claro. João Cavalcanti conclamou fazendeiros, comerciantes e proprietários a contribuírem com a nova instituição. A Casa de Caridade nascia, sobretudo, da mobilização da comunidade.

Organização e primeiros compromissos
Pouco mais de dois meses depois, em 1º de janeiro de 1905, uma nova reunião — realizada na casa de João Cavalcanti — deu forma administrativa ao projeto. Foram eleitos os responsáveis pela condução da obra, com destaque para José Luiz de Souza Menezes, escolhido provedor.
A estrutura montada refletia a seriedade da iniciativa. Além da diretoria, conselheiros e suplentes foram nomeados. O médico Maximiano Octavio de Lemos e o próprio João Cavalcanti ofereceram seus serviços gratuitamente enquanto residissem na cidade. O farmacêutico Frederico de Paula Cunha comprometeu-se a fornecer, por um ano, medicamentos manipulados em sua farmácia para atender à Casa de Caridade. Mesmo antes de existir fisicamente, o hospital já funcionava no espírito de solidariedade.

Obstáculos, adiamentos e a força da persistência
Apesar do entusiasmo inicial, os anos seguintes revelaram as dificuldades típicas de grandes empreendimentos em cidades do interior no início do século XX. Em 1909, durante reunião presidida novamente por Delfim Moreira, o provedor Menezes apresentou um relatório que explicava a paralisação das obras.
A prioridade, naquele momento, havia sido dada à construção da torre da igreja matriz — decisão influenciada pelo vigário Monsenhor Martyr, que prometera apoio posterior à Casa de Caridade. Enquanto isso, materiais já haviam sido acumulados: cerca de 30 carros de pedra estavam depositados no local original e doações somavam valores significativos para a época.
Ainda assim, um novo problema surgia: o terreno inicialmente escolhido, às margens do rio Sapucaí, apresentava risco de enchentes. A necessidade de mudança de local indicava que o projeto precisaria ser repensado.

O nome que eternizou uma história
Em 23 de outubro de 1910, exatamente seis anos após o lançamento da Pedra Fundamental, uma decisão mudaria a identidade da instituição. José Luiz de Souza Menezes propôs que o empreendimento recebesse o nome de “Hospital Antonio Moreira da Costa”, em homenagem ao benfeitor recentemente falecido. A proposta foi aprovada por unanimidade.
Emocionado, Delfim Moreira declarou que a homenagem era irrecusável, por se tratar da memória de seu pai. Em seu discurso, fez uma crítica direta aos entraves políticos que, segundo ele, haviam atrasado o progresso da cidade e impedido a concretização mais rápida da obra. Ele conclamou a população a superar divergências e a assumir o compromisso coletivo com a construção de um espaço que chamou de “templo da caridade”, destinado a acolher os mais necessitados.

Translado da pedra
No ano seguinte, em 16 de abril de 1911, a história da Casa de Caridade ganhou uma cena emblemática. Em procissão, a Pedra Fundamental foi transferida do terreno original para uma nova área, próxima ao Cemitério Velho, onde finalmente seria erguido o edifício definitivo.
A cerimônia, acompanhada por discursos e pela apresentação da Corporação Musical Lyra Nova Aurora, simbolizou a retomada concreta do projeto. Em julho daquele ano, reuniões administrativas continuavam sendo realizadas em espaços como o Club Litterario e Recreativo Santarritense, enquanto as contas eram avaliadas e aprovadas com rigor.

A inauguração: o nascimento de um marco
Foi apenas em 12 de janeiro de 1913 que o sonho se materializou. Com a presença de autoridades e grande participação popular, foi inaugurada a Santa Casa Antônio Moreira da Costa — o primeiro hospital de Santa Rita do Sapucaí.
Discursos marcaram a solenidade. Entre eles, o do provedor Menezes, que definiu a obra como um símbolo de civilização e grandeza moral: “A obra humanitária que aí fica consagrada […] é destas que mais elevam uma sociedade porque, dignificando-a, justifica-lhe o grau de civilização.” Ele destacou ainda o caráter duradouro da iniciativa, capaz de atravessar gerações, e ressaltou a importância de cuidar dos enfermos indigentes — aqueles que, muitas vezes, sucumbiam sem assistência.
Mais uma vez, Delfim Moreira foi apontado como figura central na viabilização do projeto, especialmente pelo apoio obtido junto aos altos poderes e pela atuação em momentos críticos, como durante enchentes que atingiram a população.

Legado que atravessa o tempo
A história dos primeiros anos da Casa de Caridade revela mais do que a criação de um hospital. Expõe a formação de uma cultura de solidariedade, construída por médicos, políticos, religiosos, comerciantes e cidadãos comuns.
Entre atrasos, debates, dificuldades financeiras e decisões estratégicas, prevaleceu a ideia de que uma sociedade se mede pela forma como cuida dos seus mais vulneráveis.
Da pedra lançada em 1904, nasceu uma instituição que atravessou mais de um século. Hoje, o Hospital Antônio Moreira da Costa, permanece como herdeiro direto de um ideal coletivo que uniu Santa Rita do Sapucaí, na virada do século XX, em torno de um propósito maior: transformar caridade em cuidado permanente. (Baseado nas atas da Casa de Caridade)

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