Filho de africanos trazidos ao Brasil nos navios negreiros, Camilo Antonio Felizardo nasceu em Santa Rita do Sapucaí, fato que marca não apenas sua origem, mas também o ponto de partida de uma memória viva que atravessou gerações.
Quando o seu relato foi registrado, em 1948, ele contava impressionantes 104 anos de idade e vivia em Pouso Alegre. Mais do que a longevidade, o que chamava atenção era a lucidez: a memória funcionava com precisão, como um “cinema retrospectivo”, projetando cenas de uma época em que as relações humanas, segundo ele, eram marcadas pela simplicidade e pela confiança.
De sua infância e juventude, Camilo guardava lembranças de figuras centrais da história da região. Entre elas, o Padre José Bento, descrito como homem carismático, trabalhador e profundamente envolvido com a vida da comunidade. Sua trajetória, no entanto, teve um desfecho trágico: assassinado em uma emboscada, o episódio marcou profundamente a memória coletiva da região.
— Os três irmãos (assassinos) eram gente rústica, abrutalhada, pouco amiga da paz. Tramaram a morte do padre e numa tarde, quando o padre ia pro sítio, atiraram nele de tocaia. Deixaram o corpo estendido na estrada e desapareceram.
Baltazar foi morto pela policia, em Santa Rita do Sapucaí, quando atravessava a ponte. Dionisio fugiu para a província de São Paulo. Mas a justiça divina não falha, o Dionisio ficou morando naquela província e lá não arranjou família. Um dia o homem brigou com a mulher e disse que ia fazer com ela o que tinha feito com o padre em Minas. A polícia, instigada pela mulher, descobre a coisa e recambia o Dionisio para a nossa cidade. O dia da chegada do prisioneiro foi tal qual um dia de festa. Toda gente queria ver o homem que tinha matado o padre-senador. E o homem que havia assassinado a figura mais importante da cidade voltava velhinho, doente, que dava pena. Dionisio morreu poucos meses depois de ter voltado para Pouso Alegre.
Camilo também recordava com carinho médicos como o Dr. José Antonio Freitas Lisboa, a quem chamava de “arma santa”, símbolo de dedicação e caridade. A eventual retirada de seu nome de um espaço público provocava indignação no centenário, evidenciando o valor que atribuía à gratidão e à preservação da memória.
Outro nome presente em suas lembranças era o de Monsenhor José Paulino, descrito como homem de bondade extraordinária, enviado ao Ceará em missão religiosa e humanitária. Para Camilo, figuras como essas é que davam sentido à vida em seu tempo.
Ao final de seu relato, Camilo Felizardo segue como símbolo de uma época distante, um homem nascido em Santa Rita do Sapucaí que atravessou mais de um século carregando, na memória e na palavra, a lembrança de um mundo que já não existe mais.
(Texto baseado em matéria publicada no jornal “A Cidade” de Pouso Alegre no dia 19 de outubro de 1948)
Nascido em Santa Rita, Camilo Felizardo atravessou um século como testemunha viva da história
Um homem nascido no tempo da escravidão viveu 104 anos para contar sua história. Conheça a impressionante memória de Camilo Felizardo.

































