Você é santa-ritense?
Sou filho de santa-ritenses e nasci aqui. Minha família morava em São Paulo, minha mãe veio para Santa Rita para eu nascer, fiquei dois ou três meses por aqui e voltamos para a capital paulista. Com dois anos de idade, me mudei com a minha família para o Rio de Janeiro, morei até os onze anos, me mudei para Cabo Frio e voltei, aos 15 anos, para estudar na ETE, em 1992.
Ao me formar em eletrônica, me mudei para o Rio de Janeiro, onde permaneci por um ano e meio. Depois disso, voltei para Santa Rita para fazer Inatel, saí em 2001, fui para São Paulo, prestei concurso para o CTA (Centro Técnico de Aeronáutica), que atualmente se chama DCTA (Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial) e passei. Tomei posse nesse cargo no ano de 2002 e estou lá desde então.
Como funciona o programa aeroespacial brasileiro?
Aqui no Brasil majoritariamente, até alguns anos, vigorava o que chamamos de “Old Space”, promovido pelo setor governamental. Na década de 1980, havia um plano chamado MECB (Missão Espacial Completa Brasileira) onde o presidente criou uma missão que previa que o Brasil deveria ter um centro de lançamento que deveria ser capaz de produzir um veículo orbital e criar o satélite que o tal veículo deveria levar. O segmento espacial, responsável pela produção do satélite, ficaria a cargo do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e a base de lançamento com o veículo ficaram sob responsabilidade do Comando da Aeronáutica. Já existia o centro de lançamento da Barreira do Inferno, em Paramirim e começou a ser criado o centro de lançamento de Alcântara, no Maranhão.
Para que setor você foi encaminhado?
O veículo, chamado VLS (Veículo Lançador de Satélites), começou a ser desenvolvido dentro do IAE (Instituto de Aeronáutica e Espaço). Foi para lá que eu fui. Permaneci vinte anos nesse instituto e, hoje, eu faço mais a parte de governança de operações de lançamento espacial. Os períodos ociosos da base de lançamento de Alcântara passaram a ser oferecidos a parceiros nacionais e internacionais para realizarem seus lançamentos, mediante pagamento de um determinado valor para o estado. Então há empresas que utilizam o local e, mais recentemente, foi utilizado pela Coreia do Sul. Essa governança dos períodos de lançamento, controle e monitoramento dos sistemas é feita por esta minha divisão de atividades espaciais.
Você já presenciou muitos lançamentos de foguetes?
Todos os lançamentos, de 2007 a 2018. Nesse período ocorreram por volta de 10 lançamentos. Na prática, eu pouco vi destes lançamentos porque eu permanecia dentro da casamata, localizada a — mais ou menos — uns cem metros do lançador. Como eu era chefe da equipe que fazia a integração e montagem do foguete, durante o lançamento só conseguia ver o que era mostrado através dos telões. Conseguia escutar o barulho do lançamento mas não tinha a visão de quem observa de longe o veículo traçando o céu. Acho que só tive a experiência de ver no céu uma única vez.
Você esteve presente em um acidente que ocorreu num desses lançamentos?
Em 2015, tivemos o que chamamos de “infortúnio”, com um VS-40 (Veículo de Sondagem / Foguete Suborbital). Cada situação é classificada de uma forma. Nesse caso houve um certo prejuízo às instalações das estação espacial. Ele explodiu no lançador.

Quando aconteceu aquele acidente com vítimas fatais?
Foi em 2003. Na ocasião, eu já trabalhava no instituto, mas não estava em Alcântara. O primeiro lançamento de que passei a participar aconteceu em 2007. Antes disso, fui fazer um mestrado no exterior, entre 2004 e 2005.
Você conhecia as vítimas daquela explosão que ocorreu durante o lançamento?
Eu conhecia todas as vinte e uma vítimas. Nove pessoas que faleceram trabalhavam na mesma divisão que eu. Foi um choque para mim, mas foi muito pior para as pessoas que já estavam trabalhando juntas há vinte e cinco, trinta anos.
O Brasil perdeu um grande capital intelectual com esse acidente?
Com certeza. Tanto que muita coisa mudou dali em diante. Nos tornamos bem mais restritivos em algumas decisões, depois do acontecido. Acabou que, em 2016, o projeto do VLS (Veículo Lançador de Satélites) foi descontinuado porque não conseguimos lançar mais nenhum. O primeiro lançamento foi em 1997, o segundo em 1999 e o terceiro seria em 2003, quando ocorreu aquele acidente. Depois desse terceiro veículo, a gente nunca mais lançou VLS.
Esta tecnologia era inovadora?
Sim. O VLS é um projeto dos meados da década de 1990 que levava uma carga útil de 350 quilos a uma órbita de 700km, com energia suficiente para orbitar. Até hoje são pouquíssimas as agências espaciais ou operadores com essa capacidade. Estão tentando agora produzir alguma coisa com propulsão híbrida e líquida, mas o combustível era totalmente sólido e possuía uma tecnologia de vanguarda. Este programa espacial brasileiro foi de vanguarda desde o começo, no início da década de 1960. Foi um momento em que os EUA pediram para usar Fernando de Noronha para realizar o rastreamento de um veículo que estavam lançando lá. O interesse espacial brasileiro começou nessa época e tomou forma com os primeiros veículos de sondagem que eram lançados, não tinham controle e caíam. Eram usados para sondagens, avaliação de eventos atmosféricos e outros estudos. Nós começamos com as sondas dois, três e quatro e depois veio o VLS. Foi um momento em que na América do Sul nem se pensava em algo parecido.
O que está sendo produzido neste setor?
Hoje, a gente tem veículos suborbitais, o VSB-30 (foguete de sondagem direcionado a realizar experimentos em ambientes de microgravidade). Inclusive eles são vendidos para o DLR (Agência Espacial Alemã). Vale dizer que esses veículos que produzimos foram mais lançados fora do país do que por aqui. Fizemos somente alguns lançamentos por aqui e o próximo irá acontecer no ano que vem.
Quando você diz veículo, traduzindo para o leigo, quer dizer foguete?
Sim, mas o termo foguete geralmente é utilizado para fins de defesa. É como um míssil sem controle. Quando falamos “veículo espacial suborbital”, trata-se de um equipamento que não consegue entregar uma carga útil, em determinada altitude, com a energia necessária para orbitar. Ele sobe, perde energia e cai. Dependendo do veículo, pode cair na água ou ter um sistema de recuperação e ser resgatado posteriormente.

Antes de atuar neste setor você tinha ideia do que o Brasil produzia?
Eu confesso que, antes de sair do Inatel, até prestar o concurso, não sabia exatamente o que era feito no Brasil dentro deste segmento. Foi lá, por exemplo, que nasceu o motor a álcool. A Embraer também surgiu no CTA. Eu não sabia, até então, que existia um programa espacial brasileiro e que o país produzia foguetes. Isso, no entanto, já acontecia desde os anos 80. O CLBI (Centro de Lançamento da Barreira do Inferno) existe desde a década de 1960. Desde essa época a gente já lançava veículos americanos com finalidades científicas. Quando eu cheguei lá foi que eu vi a grandiosidade que era e como o Brasil era exemplo para diversos países. Na década de 1990, a gente estava na frente da Índia neste segmento. Hoje eles lançam até veículos terrestres na lua. Por ser um programa governamental, não ser um programa de Estado e, sim, de governo, ficamos muito ligados à gestão.
Sempre que acontece um lançamento que não dá certo, as pessoas cogitam que houve sabotagem. Isso é uma possibilidade real?
O programa espacial é muito ingrato. Se você pular alguma etapa, teste ou ensaio, vai fazer falta em algum momento. Trata-se de um trabalho em que não há espaço para consertos. Se você lançar um veículo e não der certo, perdeu aquele voo. Todo detalhe é muito importante e deve ser estudado e levado em conta.
É muito normal pairar a dúvida, quando ocorre um incidente, se houve ou não sabotagem. Isso acontece porque as pessoas sempre pensam em alguma explicação mirabolante. Os centros de lançamento do Brasil são regidos pelo comando da aeronáutica e têm todo um sistema de inteligência que atua ao lado de outras instituições, como a Policia Federal. Eu não digo que não exista intenção de sabotagem externa, mas posso dizer que a segurança é muito bem cuidada. Se a gente for comentar sobre o VLS onde perdemos vinte e uma pessoas, o relatório do acidente aponta que as equipes estavam montando o lançamento há 3 meses e que não houve qualquer indício de sabotagem.
Qual é o sonho de sua equipe? Aonde vocês querem chegar?
Por trabalhar com engenharia eu sou muito pé no chão quanto a sonhos, mas o que buscamos é a autonomia brasileira. Na área suborbital, o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Especiais) conseguiu produzir o seu satélite e o centro lança. Hoje você tem no mundo muitas empresas que fazem satélites, mas se quiser lançar para a órbita terrestre, precisa contratar empresas como a SpaceX. Se você tiver um satélite e quiser contratar o serviço de lançamento deles só terá vaga para daqui a dois anos e eles fazem lançamentos a cada dois dias. Então, hoje, no Instituto de Aeronáutica e Espaço há um projeto de um veículo lançador de microsatélites. Depois que aconteceu o acidente com o VLS aquela torre foi reconstruída. Trata-se de uma torre com várias plataformas e você vai montando o foguete dentro dela. Em dado momento, em vez de tirar o foguete, você tira a torre móvel de integração.
Nós contratamos uma empresa chamada Avibrás para fazer o projeto do motor (propulsor). Ela produziu, chegamos a fazer um primeiro ensaio em 2022, fizemos medições, mas a empresa começou a passar por dificuldades. Ela foi contratada para fazer seis motores, está com o equipamento carregado mas não está conseguindo entregar. Era para termos lançado em 2025, mas não conseguimos ter uma previsão realista porque dependemos dessa entrega.
Como as pessoas podem saber mais sobre o assunto?
Em São José dos Campos, há um memorial Aeroespecial Brasileiro (MAB) com várias maquetes em tamanho real dos veículos brasileiros. Para maiores informações, basta acessar o site www.mab.dcta.mil.br.

































