A trajetória dos “Campos do Amaral”, de Paraty ao sul de Minas

Da Paraty colonial ao Sul de Minas, a trajetória da família Campos do Amaral revela como histórias familiares ajudam a explicar a formação de territórios, instituições e cidades. Entre comércio, política, religião e vida pública, o estudo resgata um percurso que atravessa o século XIX e encontra em Santa Rita do Sapucaí um ponto de enraizamento e convergência dessa memória histórica.

Há famílias cuja história não cabe apenas em árvores genealógicas. Ela se espalha pelo território, deixa marcas em documentos, igrejas, cartórios, fazendas e cidades inteiras. Assim é a trajetória dos Campos do Amaral, registrada no estudo “Uma família paratiense do século XIX – Os Campos do Amaral”, publicado na Revista da ASBRAP º 1. A saga começa no litoral fluminense, entre o porto de Paraty e o comércio marítimo, atravessa a serra e encontra continuidade no Sul de Minas, onde Santa Rita do Sapucaí assume papel importante nessa história.

Paraty, o ponto de partida
O fio dessa narrativa começa em Portugal, com José Luiz de Campos, nascido em 1751, que antes de 1779 se estabelece na vila de Paraty, então um dos mais importantes portos do Sudeste colonial. Ali, constrói fortuna e reputação como comerciante e importador de sal, proprietário de embarcações e de um dos maiores empórios da região. Do cais partiam mercadorias e, com elas, relações que ligavam o litoral às vilas do interior.

A prosperidade logo se converteu em influência pública. Entre o final do século XVIII e as primeiras décadas do XIX, José Luiz ocupou sucessivos cargos da governança local — juiz ordinário, procurador do conselho, almotacel e juiz de órfãos — além de atingir posto elevado nas milícias, reformando-se como sargento-mor. Sua importância ficou registrada em documentos da época, que o chamavam de “o grande juiz José Luiz de Campos”. Casado com Ângela Maria Rosa, faleceu em 1814 deixando não apenas bens, mas uma estrutura familiar sólida.

Entre o altar e a Câmara
Na geração seguinte, dois filhos simbolizam caminhos distintos do poder oitocentista. Joaquim Mariano do Amaral Campos, o cônego, destacou-se no campo religioso e administrativo. Vigário da matriz de Nossa Senhora dos Remédios e capelão da igreja de Nossa Senhora das Dores — onde se realizavam os atos oficiais da vila durante o Império — tornou-se conhecido como orador sacro, ouvido no Rio de Janeiro e em São Paulo. Exerceu também funções civis, como juiz de órfãos. Seu inventário, aberto em 1860, revela o perfil patrimonial de seu tempo.

Outro percurso foi trilhado pelo comendador José Luiz Campos do Amaral, que herdou e ampliou os negócios do pai à frente da firma Viúva Campos & Filho. Comerciante, armador e proprietário rural, ocupou praticamente todos os cargos da governança de Paraty, liderou o Partido Conservador local, contribuiu para obras religiosas e recebeu honrarias do Império, entre elas a Carta de Brasão d’Armas. Durante boa parte do século XIX, Paraty permaneceu como o centro da vida da família.

A travessia da serra
Na segunda metade do século XIX, o eixo da família começa a se deslocar. Pouso Alegre surge como novo espaço de residência e atuação, especialmente após a nomeação do major José Luiz Campos do Amaral para chefiar a Comissão de Limites entre Minas Gerais e São Paulo. Esse movimento simboliza a passagem do mundo portuário para o interior.

É nesse contexto que ganha protagonismo Joaquim Mariano Campos do Amaral, filho do major José Luiz. Pertencente à geração que encerra o ciclo paratiense da família, ele se estabelece em Minas Gerais como escrivão, tabelião e oficial do Registro de Imóveis, além de alcançar o posto de coronel da Guarda Nacional. Em Pouso Alegre, idealizou o Clube Literário e Recreativo e participou da formação da primeira biblioteca da cidade. Ainda em Paraty, Joaquim Mariano enfrentou a morte de sua primeira esposa, Maria José de Jesus Vieira, em 1894. Somente depois desse episódio se deslocou definitivamente para o Sul de Minas, onde reconstruiria sua vida familiar.

Joaquim Mariano Campos do Amaral.

Santa Rita e o enraizamento mineiro
Após a viuvez, Joaquim Mariano casou-se com Maria de Abreu Ribeiro, viúva de José Carneiro Santiago e natural de Santa Rita. Filha do Cel. Joaquim Inácio, chefe político local, e de Joaquina Felicidade de Abreu, ela integrava um tronco familiar profundamente enraizado no Sul de Minas, ligado às famílias Ribeiro, Carneiro e Mendonça. Essa união marcou o enraizamento definitivo de um ramo dos Campos do Amaral em Santa Rita, conectando a tradição administrativa herdada de Paraty às estruturas políticas e patrimoniais do interior mineiro. É nesse mesmo tronco que se insere a ascendência do presidente Dr. Delfim Moreira.

Ramos familiares e presença santa-ritense
A presença dos Campos do Amaral em Santa Rita do Sapucaí, entretanto, não se deu por um único caminho. Parte da família — entre eles os descendentes do Dr. Oswaldo Campos do Amaral — provém de ramos paralelos originários do tronco paratiense formado por José Luiz de Campos e Ângela Maria Rosa, no final do século XVIII. Esses ramos seguiram trajetórias distintas ao longo do século XIX, migraram para Minas Gerais por caminhos diversos e acabaram por se reencontrar no território santa-ritense.

Amphilóquio Campos do Amaral
Amphilóquio Campos do Amaral é um dos nomes que materializam a presença da família na vida pública de Santa Rita do Sapucaí. No início do século XX, destacou-se como juiz de Direito e participou ativamente da comunidade, exercendo importante papel na organização institucional e jurídica da cidade em um período de consolidação republicana. Sua atuação reforça o protagonismo da família, não apenas como herdeira de uma tradição, mas como agente ativo na construção da história.

O autor do estudo
Edelweiss Campos do Amaral era descendente direto do segundo casamento de Joaquim Mariano, união que ligou definitivamente esse ramo da família às tradicionais famílias de Santa Rita do Sapucaí. Por essa linhagem, herdou não apenas vínculos de sangue, mas uma relação concreta com a cidade, marcada pela terra, pela política e pela memória familiar. Ao assumir a administração da fazenda São Joaquim, não retornou apenas a um patrimônio, mas a um território formador de sua própria identidade. Ao longo de mais de um século, a trajetória dos Campos do Amaral revela um movimento contínuo de deslocamentos e permanências: de Paraty ao Sul de Minas, de um tronco comum a múltiplos ramos familiares. Em Santa Rita do Sapucaí, esses caminhos acabam por se reencontrar, fazendo da cidade um ponto de convergência de uma história, onde obras e memórias se entrelaçam.

O autor do estudo, Edelweiss Campos do Amaral.

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