A revolta dos barbantes

Às vezes, a primeira aula de liderança acontece na mesa de jantar. Neste texto de Bráulio Souza Vianna, a figura do pai transforma tarefas simples em cargos solenes: chefe dos pregos, dos barbantes, dos papéis de presente. O que parecia brincadeira vira método — organização, responsabilidade, senso de pertencimento. Cada filho assume seu “setor” com orgulho, zelo quase profissional e uma boa dose de criatividade. Mas toda estrutura é testada quando o reconhecimento não acompanha o esforço. E é aí que a história dá a virada: a rebelião silenciosa dos pequenos chefes revela que liderar — e ser liderado — tem mais camadas do que parece. Uma crônica sobre família, estratégia e as lições invisíveis que moldam caráter muito antes da vida adulta começar.

(Por Bráulio Souza Vianna)

Papai sempre incentivou os filhos a terem responsabilidade e tinha estratégia para isto.
Solenemente, reuniu todos os filhos à volta da mesa de jantar e designou cargos a todos eles: “A partir de hoje, o Bruno será o chefe dos pregos, parafusos, porcas e arruelas. O Breno será o chefe dos arames e barbantes. A Brenda será a chefe dos papéis de presente e responsável pelas correspondências. O Bráulio é ainda novo para assumir uma chefia e tem apenas que colaborar com os irmãos.”
Feitas as designações, passou a descrever os cargos: “Vocês serão os chefes responsáveis dessas áreas, a quem sua mãe e eu recorreremos sempre que precisarmos desses materiais. Devem procurar e guardar nessas caixinhas de madeira todos os materiais que acharem, sobra de obra ou do cotidiano.”
No começo foi muito bem, cada um querendo mostrar serviço e garimpando em todos os cantos da casa e da fazenda.
Quando nossos pais precisavam de algo, chamavam o chefe daquele setor para prover o material.Os tais chefes se esmeravam para separar os parafusos por tamanho, enrolar os barbantes de modo a não virem a embaraçar, passavam os papéis de presente usados com ferro elétrico. O chefe dos barbantes implorava aos retireiros para abrirem os sacos de ração soltando os nozinhos e puxando as costuras dos dois lados; só não podia abrir com canivete para não estragar o barbante.
A cada solicitação, o respectivo chefe prontamente fornecia os materiais solicitados.Até que veio a revolta do chefe dos barbantes que, não vendo nenhum benefício em ser chefe, se rebelou dizendo que a partir daquele dia não queria ser chefe de nada.A notícia se espalhou como rastilho de pólvora e, na sequência, os outros dois também entregaram os seus cargos.

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