(Salatiel Correia)
Neste espaço, contamos a história daquele que é consagrado como o pai da aviação: Alberto Santos Dumont.
A trajetória da família Dumont no Brasil é, por si só, uma narrativa épica. Partindo do Rio de Janeiro, o clã migrou para o interior paulista em uma longa viagem de trem até Campinas. Dali, o percurso até Ribeirão Preto — cerca de 220 quilômetros — foi realizado a cavalo, em uma travessia que simboliza o espírito desbravador da época. Em Ribeirão Preto, a família, de perfil claramente empreendedor, iniciou suas atividades com um capital de aproximadamente 300 contos de réis.
Antes da abolição da escravatura, a estrutura produtiva da família era grandiosa: dispunha de cerca de 80 escravizados próprios e outros 150 trabalhadores alugados. Foi nesse contexto que os Dumont construíram aquela que muitos historiadores consideram a primeira fazenda verdadeiramente tecnológica do Brasil. A propriedade chegou a produzir cerca de 5,7 milhões de pés de café, operava sete locomotivas próprias e mantinha uma malha ferroviária interna de aproximadamente 96 quilômetros.
O grande responsável por essa modernização foi o pai de Alberto, o mineiro , figura central no desenvolvimento agrícola da região. Coube a ele, inclusive, o papel decisivo na chegada da Estrada de Ferro Mogiana a Ribeirão Preto, conectando a produção cafeeira local aos grandes centros consumidores e aos portos de exportação.
Seguindo a tradição familiar, Santos Dumont nasceu em Minas Gerais, no então distrito de João Gomes, hoje município que leva seu nome. Amparado pelo patrimônio familiar e por uma doação da prefeitura de Ribeirão Preto, mudou-se ainda jovem para a França. Em Paris, dedicou-se intensamente às experiências com balões e dirigíveis, que o conduziram ao auge de sua genialidade: a criação do avião.
Além do aeroplano, símbolo máximo da modernidade do século XX, Santos Dumont também deixou outras contribuições menos conhecidas do grande público, como a invenção e popularização do relógio de pulso, concebido para facilitar a leitura do tempo durante os voos.
Em 1916, já consagrado internacionalmente, acompanhou de automóvel uma corrida inédita entre Ribeirão Preto e São Paulo, percurso então considerado audacioso, realizado em cerca de 12 horas — um feito que ilustra a transformação dos transportes no Brasil do início do século XX.
Embora o pioneirismo seja frequentemente citado por parte da historiografia anglo-saxã como a primaz do voo motorizado, Alberto Santos Dumont é reverenciado em diversos países — especialmente na Europa e na América Latina — como o verdadeiro inventor do avião. A razão central dessa distinção está no caráter público, autônomo e oficialmente certificado de seus voos: Santos Dumont decolou diante de testemunhas, sem auxílio externo, e teve seus feitos reconhecidos por instituições aeronáuticas internacionais. Por isso, para além da disputa cronológica, sua contribuição permanece associada ao nascimento simbólico do avião como emblema da modernidade e do engenho humano.
Salatiel Soares Correia é Engenheiro, Administrador de Empresas, Mestre em Energia pela Unicamp. É autor de nove livros relacionados às áreas de Energia, Política e Economia.Membro titular do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás.

































