Padre Mendes, ProjETE e o Espírito Inventivo da ETE, nos Anos 80

Durante os anos 1980, a Escola Técnica de Eletrônica Francisco Moreira da Costa (ETE FMC) viveu um período marcante de transformação e criatividade. A década foi palco do nascimento de iniciativas que moldariam o espírito inovador da instituição, como a feira ProjETE, e foi marcada por uma gestão pautada pela discrição, mas com resultados duradouros sob a liderança do padre José de Souza Mendes.

Em 1981, diante da dificuldade de aprendizagem dos alunos do primeiro ano na disciplina “Laboratório I”, a professora Nídia Sancho Telles buscou uma solução criativa: transformar o conteúdo técnico em algo prático e motivador. Com o apoio do aluno Cristiano José Barbosa e do diretor de ensino Mário Augusto de Souza Nunes, nasceu o “Seminário de Eletrônica” que, mais tarde, ganharia o nome definitivo de PROJETE.
A primeira edição da feira aconteceu em uma sala de aula, com participação exclusiva dos alunos do primeiro ano. Com pouca experiência, os estudantes contaram com o apoio fundamental de professores como Jacob Brasil Carli (Zinho) e do sempre prestativo padre Furusawa, que orientava enquanto enrolava transformadores e bobinas. Um dos projetos premiados foi um sistema de alarme residencial. No entanto, um outro projeto, um jogo chamado “Senha”, quase comprometeu o evento ao provocar um curto-circuito que danificou parte da instalação elétrica da escola.

A evolução da PROJETE
Apesar dos percalços, a feira cresceu. Passou a ser aberta ao público e se transformou em um verdadeiro palco da criatividade dos futuros técnicos. O nome PROJETE surgiu de um concurso, vencido pelo aluno Márcio Rafael da Silva, que uniu o verbo “projetar” à sigla ETE.
Inovação que impressiona

Com o tempo, os projetos se tornaram mais ambiciosos. Um dos destaques das primeiras edições foi Douglas Bruno, que apresentou um sistema “double stereo” — novidade até então — causando impacto ao exibir sons realistas de um filme de guerra no anfiteatro da escola. Professores também incentivavam a participação com prêmios, como o professor Navantino Dionísio Barbosa Filho, que oferecia assinaturas de revistas técnicas como recompensa aos grupos mais criativos.
Apesar de mudanças naturais ao longo das edições, duas marcas da PROJETE permanecem desde sua criação: o incentivo ao trabalho em equipe e o foco em soluções práticas para problemas reais, especialmente nas áreas de saúde e meio ambiente. Muitos projetos desenvolvidos para a feira acabaram dando origem a empresas que passaram a integrar o chamado “Vale da Eletrônica”, na década 1980.

Um diretor que liderou com silêncio e firmeza
Em agosto de 1985, a ETE iniciou um novo ciclo com a posse do padre José de Souza Mendes como diretor-geral. Sua gestão, que se estenderia até 1999, foi marcada pela discrição e pela valorização do trabalho coletivo. Residindo em Santa Rita do Sapucaí até 1989, padre Mendes passou a realizar visitas mensais à escola, após ser transferido para outros cargos no Rio de Janeiro e, posteriormente, em São Paulo.
Durante sua ausência, a escola foi conduzida por diretores-adjuntos: Waldemar Puccini (1989-1994) e depois por Luiz Alberto Boeing (1994-1998). Mesmo à distância, padre Mendes manteve forte vínculo com a equipe, sempre valorizando todos os colaboradores, “desde o diretor de ensino até o último funcionário”, como ele próprio recordou.
Entre as conquistas de sua administração está a obtenção de uma verba do Ministério da Educação, logo após sua posse, que possibilitou a aquisição de osciloscópios e outros equipamentos, o que modernizou os laboratórios da escola. Outra realização foi a escolha da ETE FMC como sede das olimpíadas dos colégios jesuítas de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro — reconhecimento do prestígio da instituição.

Disciplina e afeto nos alojamentos
Durante os anos 80, os alojamentos da ETE chegaram a receber mais de 200 alunos. Padre Mendes implementou medidas para garantir disciplina e um ambiente acolhedor, em sintonia com o rigor da tradição jesuíta. Apesar da exigência nos estudos, eventos como as festas juninas ajudavam a aliviar a tensão e promoviam a convivência entre os estudantes.
Ao concluir seu mandato em 1999, padre Mendes deixou um legado de compromisso e serenidade. “Foi amor à primeira vista”, recordou o sacerdote falecido em 2018, aos 93 anos. Seu carinho pela escola permanece vivo: “Só não voltei a Santa Rita devido ao avançar da idade e às exigências dos novos ofícios.”
A década de 1980 foi um divisor de águas na história da ETE FMC. Marcada por desafios, mas sobretudo por inovação, espírito comunitário e liderança discreta, consolidou a escola como um dos principais polos de formação técnica do país. A PROJETE, símbolo maior desse período, segue viva como testemunho do potencial transformador da criatividade aliada ao conhecimento técnico.

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