(Por Nídia Telles)
Nunca gostei de ir à bailes, porque sempre tive noção da minha incapacidade de dançar com eficiência e naturalidade. Minha leveza sempre foi paquidérmica e creio que minha graça era apenas causadora de pena e risos um tanto disfarçados. Mas meu pai, mesmo sabedor dessa minha dificuldade, fazia suas tramoias para que eu me tornasse menos tímida e reclusa. Baixava a lei:
— Vocês só irão ao baile se as três filhas forem.
E isso valia também para minha mãe que adorava nos levar ao Clube Santa-ritense onde a orquestra do João de Abreu tocava boleros, valsas e outros ritmos e as pessoas rodopiavam mostrando seus dotes de bailarinos.
Era a hora de haver algum lucro para mim.
A Lúcia, minha irmã, logo começava com as promessas:
— Se você for, eu deixo você usar aquela minha blusa azul por três vezes.
Era pouco. Eu respondia:
— Não vou nem morta.
Ela aumentava os benefícios:
— E ainda arrumo a cozinha do jantar no seu lugar durante uma semana.
A coisa começava a melhorar.
Depois de mais algumas oferendas, eu pesava os prós e os contras, pensava no tamanho do meu lucro e aceitava:
— Tá bom! Eu vou.
E ameaçava:
— Mas é a última vez.
Existiram várias negociatas durante minha adolescência.
E eu ia para o sacrifício lucrativo. Sentava, ao lado de minha mãe, com a pior cara do mundo esperando que ninguém me convidasse para dançar. Ela não permitia que a gente recusasse um convite. Nós jovens usávamos a expressão “dar tábua” para essa negação. Muitas vezes rodopiei com quem eu não queria, rezando para a música acabar logo.
Quando chegava o Carnaval, tudo era diferente. Sempre adorei os “Gritos de Carnaval” que antecediam à Festa de Momo e os quatro dias de festança. Não era dança, era liberdade. Podia trocar de par a hora que bem entendesse. Dançava homem com homem, mulher com mulher, sozinha ou acompanhada. Tudo era permitido. Era alegria pura e simples.
Nessa época não estava havendo desfile dos dois blocos carnavalescos rivais, mas surgiram algumas tentativas de blocos para animar o carnaval da cidade. Participei dos desfiles da Bandalheira criada pelo Marcos Flávio e também dos Milionários. Pena que foram apenas lampejos de luz que duraram apenas um ano.
Quando os blocos do Ride e dos Democráticos voltaram a se apresentar, graças a Deus, eu já trabalhava, tinha um dinheirinho e podia pagar um carnê durante o ano todo para poder participar do desfile do meu bloco do coração.
Deixava de viajar nas férias para ajudar a bordar as fantasias. Todas as tardes, ia para a casa da dona Lídia onde passava tardes deliciosas com dona Sofia, dona Eunice, dona Bezinha e outras senhoras bordadeiras de mão cheia.
Nessa época, tudo era segredo. As partes das fantasias eram feitas separadamente para que ninguém soubesse a sua totalidade. Os participantes do bloco experimentavam sua fantasia com os olhos vendados. Ninguém revelava nem mesmo a cor da fantasia para pessoas do bloco rival.
O Sr. Gilberto Capistrano, marido de dona Bezinha era presidente do Ride Palhaço, adversário do nosso bloco. Na hora de ir para casa, como quem não tinha percebido, ela pendurava no pescoço uma linha de cor diferente à da fantasia que estava sendo feita. No outro dia, molhava na saliva uma lantejoula diferente e a colava no cabelo. Era tudo um grande divertimento.
Alguns dias antes do desfile, depois de jurar de pés juntos e por todos os santos de que não abriria o bico, vestia minha fantasia completa para que elas vissem como havia ficado. A sala, então, se transformava em um local de gritos e palmas. A missão estava cumprida!
Chegava o grande dia, havia o arrepio do toque do clarim e descíamos em direção à praça. A multidão nos esperava para a apoteose santa-ritense.
Sempre achei que o Bloco dos Democráticos estava mais bonito. Poderíamos estar vestidos de farrapos como os mendigos do Joãozinho Trinta, mas, mesmo assim, estaríamos mais bonitos.
É PAIXÃO que não se explica!

































