Durante as primeiras décadas do século XX, o Carnaval de Santa Rita do Sapucaí tinha um ritmo próprio. Era uma festa marcada pelo som das bandas locais, pelo cair dos confetes das sacadas, pelo perfume que tomava conta das ruas e pelo desfile organizado, quase cerimonial, de homens, mulheres e crianças que ocupavam com naturalidade os espaços centrais da cidade.
Foi nesse contexto que surgiu o Bloco Hora H.

Pouco lembrado nos registros formais, mas profundamente vivo na memória da cidade, o Hora H foi um bloco da alta sociedade santa-ritense, formado por filhos de fazendeiros de café e leite, comerciantes, professores, profissionais liberais, músicos das bandas locais e famílias tradicionais. Era o carnaval de quem tinha sobrenome, posição social e capital simbólico.
Os bailes aconteciam no Cine Theatro e no Clube Literário, espaços de sociabilidade refinada, onde o carnaval se misturava com a ideia de elegância e distinção. Não era apenas brincar: era aparecer, pertencer e ser notado.
A cada ano, o Hora H escolhia um tema. Fantasiavam-se em conjunto, construindo uma identidade visual homogênea, pensada, ensaiada. Através das raras imagens remanescentes vemos esse cuidado: trajes elegantes, bem cortados e chapéus alinhados, numa clara tentativa de distinção estética e social em relação a outras formas de brincar o carnaval

Quando o carnaval tinha cheiro
Era comum, quase esperado, que os foliões da elite ostentassem tubos metálicos de lança-perfume, especialmente o famoso Rodouro, importado, caro e símbolo inequívoco de status. O aroma, doce, mentolado, levemente alcoólico, misturava-se ao suor, ao pó de arroz, às serpentinas e à música, criando uma atmosfera que quem viveu nunca esqueceu. Naquele tempo, o lança-perfume não era visto como transgressão. Era parte do ritual, especialmente entre os mais endinheirados. Ostentar o tubo era quase tão importante quanto a fantasia. A música vinha das bandas locais, que acompanhavam os blocos ou animavam os bailes. Marchinhas, valsas, dobrados e temas europeus ecoavam pelas ruas e pelos salões. O Carnaval de Santa Rita, naquele período, dialogava muito mais com Veneza e Paris do que com o samba que começava a ganhar força nos grandes centros.

Do corso aos blocos
Antes dos blocos, vieram os corsos, desfiles de automóveis enfeitados, ocupados por famílias ricas, que percorriam lentamente as ruas principais da cidade. Fotografias de 1923 já registram essa prática em Santa Rita do Sapucaí, mostrando carros, chapéus ornamentados e serpentinas lançadas ao público.
Ao longo da década de 1930, à medida que a economia cafeeira e a elite agrária da região voltavam a se reorganizar, após a crise de 1929, a vida social da cidade também se fortalecia. É nesse contexto de retomada e reocupação do espaço urbano que os blocos organizados passaram a ganhar destaque. O surgimento do Hora H se insere nesse movimento: uma elite que, novamente segura de sua posição, transformou o carnaval em espaço de sociabilidade, visibilidade e afirmação.
Hora H: o precursor silencioso
O Bloco Hora H não durou muitos anos, mas deixou marca. Mesmo após o seu fim, continuou sendo lembrado nos jornais e na memória oral como parte dos “antigos e saudosos carnavais” de Santa Rita do Sapucaí, frequentemente citado ao lado de dois blocos que se tornariam os grandes protagonistas: o Ride Palhaço e o Democráticos.
Ao mesmo tempo, o carnaval da cidade também era marcado pela presença de blocos populares, entre eles o Mimosas Cravinas, um dos mais antigos de Santa Rita do Sapucaí. Associado às camadas populares e à população negra, o Mimosas Cravinas coexistiu com os blocos da elite, revelando um carnaval múltiplo, atravessado por diferentes formas de sociabilidade, pertencimento e ocupação do espaço urbano. Em sinal de reverência, era sempre ele quem fazia a abertura das festividades. Juntos, ainda que separados por origem social, trajetos e espaços, esses blocos ajudaram a construir a identidade singular do carnaval santa-ritense, onde a festa sempre foi, ao mesmo tempo, celebração coletiva e espelho de diferenças sociais.
Esses dois blocos, fundados em 1934 (Ride Palhaço) e 1935 (Democráticos), podem ser entendidos como um desdobramento do espírito que o Hora H consolidou: o carnaval da elite, organizado, temático, espetacularizado, com forte presença nos jornais, nos clubes e na vida social da cidade. Quase um século depois, a tradição segue viva, mas transformada. Ride Palhaço e Democráticos continuam desfilando, mas transformaram-se em agremiações abertas, populares e profundamente enraizados com as origens dos velhos tempos.

































