(Maria Helena Brusamolin)
Mário era um carnavalesco de primeira ordem. Para ele, um apaixonado pelo Ride Palhaço, o ano inteiro era Carnaval.
Eu já disse em uma de minhas crônicas que ele desfilava no Ride ao lado da porta-estandarte, com uma fantasia que se destacava das demais, ou sobre algum carro alegórico. Mas ele gostava mesmo era do chão, onde podia se esbaldar e tomar seus goles sem que ninguém perturbasse.
Dois fatos interessantes que ficaram marcados em minha memória aconteceram no carnaval de 1960. Nós morávamos no sobrado da Rua Antônio Moreira, em cima do armazém de nosso pai, o Putieu. Essa foi desde sempre a rua onde os blocos desfilam. Certa vez tentaram mudar os desfiles para a Avenida Delfim Moreira, mas foi um fracasso.
Naquele ano, 1960, estávamos, meus pais e eu, aguardando o magistral desfile quando recebemos a visita do Sr. Saul e esposa, ele gerente de um Banco de cujo nome não me recordo, e ela, uma senhora finíssima, educada e muito amiga de minha mãe. Pois muito bem. O Mário estava sumido desde cedo. Tomara o café da manhã e… rua! Dali a pouco chega o baixinho, nem é preciso dizer que havia tomado todas e mais algumas, cumprimenta as visitas e se dirige à copa para tomar seu lanche. Mamãe cochichou comigo: Graças a Deus agora ele vai dormir e nos dará sossego.
Não demorou um segundo depois desse comentário e ouvimos um barulho enorme vindo da copa. Pah!…. Corremos para lá e nos deparamos com o Mário deitado no chão com um galo na testa do tamanho de uma bola de pingue-pongue. Cochilou na mesa e desabou no chão! Foi aquele corre-corre, as visitas assustadas, meu pai envergonhado com o vexame, enfim, tudo o que se pode imaginar numa situação dessas.

Mamãe e eu curamos a testa do Mário e o conduzimos para o quarto, ele dando gargalhadas e cantando o hino do Ride, como sempre. Colocamos o baixinho na cama e, novamente, demos graças a Deus porque agora ele iria dormir de fato. Doce ilusão… Estávamos no alpendre de casa quando eu me debrucei para ver a rua e vejo o Mário se dirigindo ao local onde o Ride se formava, trajando uma camisa branca com os dizeres INFLAMÁVEL nas costas. Saiu feito um gato e lá foi ele vestir a fantasia. Dali a pouco, passou todo feliz desfilando ao lado da porta-estandarte e fazendo tchau para nós…
Outra dele: nesse mesmo ano, o Ride apresentou o enredo sobre a Rússia na última noite. Mário fora designado para compor um dos carros alegóricos como condutor de um trenó puxado por cães, levando uma menina linda como passageira. O problema era a posição dele no carro, ou seja, ele não poderia dar nem um passo para trás senão a queda seria fatal. Nesse caso, ele deveria estar completamente sóbrio, o que era meio difícil. Mamãe tomou conta dele o dia inteiro, a pedido do pessoal do Ride, mas mesmo assim ele fez um trato com uma senhora do bloco: ele desfilaria sóbrio, mas ela deveria acompanhar o desfile ao lado do carro alegórico, carregando uma garrafa de vodka, que ele tomaria assim que o desfile terminasse. Assim foi feito! O danado venceu. Desfilou garbosamente sóbrio e comemorou assim que o desfile acabou.
Esse era o Mário do Putieu!

































