Tatuagem

“No último dia do ano, entre memórias, medos e gratidão, Ivon Luiz Pinto faz um balanço sincero da vida. Um texto sobre passado, arrependimento, saudade e fé — e sobre como, mesmo nas sombras, ainda escolhemos a luz.”

(Por Ivon Luiz Pinto)
Último dia do ano, mas eu não estou sozinho.
Estou acompanhado de minhas lembranças e fazendo um balanço de minha vida. Estou amedrontado pelos erros que cometi, mesmo sabendo que os superei e Deus abençoou o arrependimento.
No balanço de tudo houve mais luz do que trevas, mais flores do que terra vazia. Muita coisa eu consegui fazer e foi bom, muita coisa eu deixei de fazer, e isso não foi bom.
O passado se foi e não retorna mais. Só sua lembrança e suas consequências é que voltam. O Presente é tão rápido, tão efêmero que verdadeiramente não existe, pois tudo o que acontece ficou para trás. O que acabo de escrever já foi para o passado, eu posso ler, mas não posso reescrever da mesma forma, no mesmo rolar dos ponteiros do relógio.
E minha vida tem sido um longo passado, uma longa solidão, um longo estar só. Estar desacompanhado não é bom pois a gente sofre maiores tentações e fica vulnerável, com pensamentos esquisitos e vontade ameaçadora.
Eu tenho medo. Medo do passado que me olha pelas costas, medo do futuro que não entendo. Medo de ser o não-ser, pois o Presente pode ser até Passado, mas nunca será Futuro.
Eu construí o passado, eu vivi o passado, eu amei e fui amado no passado e, por isso, tenho medo.
O Passado é uma tatuagem que eu não posso apagar e nem modificar. O Futuro é a pele que ainda está lisa à espera de ser tatuada. Muitas vezes essas tatuagens queimam, ardem e machucam. Elas criam vida para me lembrar o que eu fiz e o que eu sou.
Eu queria que o meu passado fosse um enorme painel com fotos da minha vida, mas não, ele é um painel com rabiscos e caricaturas.
A dor é o preço que pagamos pelo amor, mas o procuro um milhão de vezes.
Sinto que o peso da saudade dói profundamente no corpo, nos olhos e na alma neste poente da idade. E a saudade é o diálogo entre o passado e as leituras ao longo da vida. E assim compreendo que os caminhos da vida ficam mais escuros quando se tenta caminhar sozinho.
Eu me apoio na família, nos amigos e em Deus para que meu ocaso seja cheio de cores, como a aquarela celeste, como na noite em que as cores são sugadas pela tarde.

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