De 1807 a 1814, travou-se a histórica Campanha Peninsular, em que se defrontaram Portugal e Espanha (aliados), contra a França de Napoleão Bonaparte. As três potências europeias diziam estar lutando pela hegemonia da Família dos Bourbons. As reais causas, no entanto, da chamada Guerra dos Sete Anos, eram bem outras. A luta foi fértil em episódios que honrariam os lusitanos, apesar de atitudes medrosas e até inexplicáveis do Príncipe Regente (Dom João), que fugiu na hora em que não devia fugir, deixando a pátria pela colônia, levando consigo toda a família real. Tendo a nação portuguesa perdido a causa da guerra, grande parte dos habitantes de Badajóz (o litigioso da serra de Gerez), tiveram que baldear, mesmo o Portugal restante. A avalanche de fugitivos, no entanto, trouxe problemas ao depauperado Portugal de após guerra. O jeito era descobrir, no Brasil, junto ao Príncipe, um lugarzinho para aquelas pessoas viverem. Lembraram-se de uma caravela, chamada Santa Rita, que estava ancorada no Porto do Rio de Janeiro, prestes a zarpar à pátria mãe. E foi quando D. João resolveu pensar: “Por que a embarcação não poderia zarpar de volta à Pátria Mãe? Por que não poderia voltar de novo à colônia trazendo em seu bojo um bom número de fugitivos do Contestado? Pensou mais um pouco e lançou a seguinte ordem: “Mando um despacho para esta colônia, pela Nau Santa Rita, que deverá voltar ao Rio de Janeiro com os válidos do Contestado, principalmente os de Badajós, Vimieiro e Olivença. Reserva ao Estado, conceder-lhes favores na nova terra, a que vêm, devendo amá-la muito, assim como amaram Portugal.”
Dois meses depois, zarpavam do Tejo a embarcação e, com ela, um casal da cidade de Olivença: José Manuel da Fonseca e Janubeba Maria Martins da Fonseca. Com eles, vieram seus dois filhos, ainda solteiros: Antônio, já mocinho e Rita de Cássia, ainda menina. O casal vinha contente de possuir um pé de meia conseguido, sabe Deus, a que duras penas, em Olivença, que lhe daria para uma ótima aplicação na nova terra. Na Caravela Santa Rita vinha o casal de Olivenses; José Manuel, com 45 anos, sua mulher e seus filhos, Antonio Manuel com 16 anos e sua irmã, com 12 anos. O mais importante foi que, entre tralhas e pertences, veio – como diz a tradição – “bem escondida num saco de algodão, uma imagenzinha de madeira (obra portuguesa, com certeza) de Santa Rita de Cássia (a santa dos impossíveis), Padroeira da Família em Olivença.”
Chegando ao Brasil, já no Rio de Janeiro, Manuel optou pelas Minas Gerais, vindo a residir em Baependy. Com o pouco que lhe sobrou da venda de sua propriedade na terra de origem, adquiriu um ótimo ponto para negócio de coisas e gêneros da terra, na saída de Baependy para Conceição e a casa ainda tinha um quintal suficiente para uma boa horta de verduras. O filho, Antonio, dirigiria o comércio, enquanto o pai, por ser meio surdo e pouco letrado, ficaria apenas com as hortaliças.
Passados seis anos, estando José Manuel da Fonseca com 51 anos de idade, Janubeba Maria Martins, com 34, lembrou a família de realizar seu sonho na nova terra. Eles venderiam a propriedade em Baependy, já valorizada e ajuntariam ao capital da venda os lucros de todos aqueles anos. Afinal, já possuíam um montante razoável que justificava a procura de terras no chamado sertão do Sapucahy, nas vertentes da Mantiqueira. E juntaram este capital à promessa do Príncipe aos desalojados do Contestado, que Manuel guardava com carinho, para a busca do El Dorado que tanto sonhavam.
A chegada
Tudo já justificava uma população razoável nas regiões do Bom Retiro, além da Serra do Mata Cachorro, espalhando-se por Bela Vista, Paredão e Furnas, mais para o sul e do chamado Pouso do Campo, até as terras banhadas pelo Vintém e pelo Córrego do Mosquito, subindo o Sapucaí.
A primeira história da vastíssima região já vinha indicando, no princípio do século, a presença de gente honrada. Entre muitos, o Alferes Antônio Manuel Joaquim Pereira e Antonio Braz Fernandes Ribas, no Pouso Danta, o Capitão João Pereira Lima e o Alferes José Vieira da Fonseca, no Abertão, ou a chamada estrada nova para Cachoeira dos Ouros e São José das Formiguinhas (Cachoeira de Minas, Conceição dos Ouros e Paraisópolis). Finalmente, o Tenente José Joaquim Ribeiro do Vale já residia no Pouso do Campo. Havia também gente nas Furnas, entre elas a Bela Vista e o Pouso Alegre, já no final da Serra do Mata Cachorro e nas proximidades de Sapucaí Mirim com Sapucaí Guaçu (Faisqueira).
O que era de admirar-se, no entanto, era que de toda a vastidão de terra, a que se dava o nome de região do Sapucaí, havia, se tanto, 500 alqueires em meio de ubérrimos sítios de elevações e várzeas cultiváveis. E um apenas estava sem dono e totalmente abandonado às margens de um insignificante veio d´água a que os primeiros habitantes (índios), deram o nome diabólico de Mosquito (Belzebu das escrituras).
Na ocasião, àquela vasta região aportavam apenas índios nômades vindos do alto do Sapucaí, no Itajubá ou na Vargem Grande (Brazópolis), onde civilizações já ali eram plantadas ou tangiam para o oeste. Faziam sempre parada à beira da Lagoa do Bicho (atual ETE), sempre à espera de outros bugres que vinham das fraldas da Mantiqueira, para rumarem aos Campos de Caldas.
(Trecho da Obra: Menino do Balaio, do Cônego Augusto José de Carvalho)