(Silva Filho)
Desde a minha mais tenra infância conheci Dito Cutuba, recém chegado de suas andanças pelo sertões brasileiros, de onde trazia muitas histórias de heróis, quase sempre vivida por ele próprio. A meninada gostava de uma reunião na boca da ponte metálica onde Pedro Andare fazia funcionar em seu armazém um autofalante com as mais lindas gravações de Perroni, Carmem Miranda, Galhardo, Chico Alves, Orlando Silva e Vicente Celestino. Ao som mavioso das melodias, Dito Cutuba, sempre inspirado, lembrava passagens de sua vida vivida sempre perigosamente. A bem da verdade e da justiça, Cutuba transformou-se num herói vivo da criançada.
Um dia, nefasto a ele, alguém suicidou-se, saltando, à noite, do alto da ponte ao rio que rolava vagarosamente. Suas águas escuras tragaram, de uma só vez, aquela que seria a companheira de Cutuba, dentro em pouco. Bom nadador e excelente mergulhador, eu o vi, chorando e chamando pelo nome de Betinha, enquanto mergulhava sem parar. Somente oito dias depois é que o corpo foi encontrado flutuando em coivara, nas proximidades da fazenda de Joaquim Fernandes. Depois disso, Cutuba passou a beber muito e nunca mais voltou à sua fama de atleta e toureiro. Isto mesmo! Sabia ele capiar um touro como ninguém e, para orgulho nosso era o detentor do salto da morte, batendo seu próprio recorde em plena arena (de touros, evidentemente).
Dele, uma passagem narrada pelo João Costa. Cutuba era o astro de determinado circo de touradas, armado na praça principal de Careaçu. Como a frequência era fraca, resolveram anunciar para certo domingo, inédito espetáculo: “O HOMEM QUE COME GENTE”. E Cutuba era esse homem! Todo mundo quiz conhecer aquela fábula e o circo se encheu de gente curiosa. Na hora do seu número sensacional, ele pediu a colaboração de alguém na plateia. E apresentou-se um almofadinha, cabelos de brilhantina untado, calças bombacha e botas bem engraxadas. Nosso herói não se fez esperar: aplicou-lhe canina e violenta dentada na orelha, fazendo sair em disparada o homem que seria devorado diante da plateia mais condescendente destas paragens.