Colunistas

Recordações de Infância

(Carlos Romero Carneiro)

No início da adolescência, um colega disparou uma bolinha de papel na minha direção, tentei desviar e o meu pescoço travou. Permaneci meses vendo a vida em quarenta e cinco graus e sentindo uma dor dos infernos. O médico disse que o choque poderia ter provocado uma infecção e me receitou uma caixa de Benzetacil. Quatro doses, uma por semana. Aquilo doía pra cacete. Novos exames, mas a inflamação persistia. Mais quatro doses, depois outras quatro e a minha mãe resolveu realizar os exames em outro laboratório. Gênio! A infecção desapareceu, como num passe de mágica. Já a dor no pescoço, se estenderia por toda a vida. Ainda sinto um certo incômodo, enquanto escrevo estas linhas. Criei uma espécie de tic ao perceber que a tensão diminuía, quando me contorcia. Dor parecida só me lembro de ter sentido quando sofri umas das minhas crises renais ou no dia em que fui atacado por um enxame de marimbondos assassinos, pouco antes de completar doze anos. Era natal. Fui convidado a acompanhar um vizinho que se vestiu de Papai Noel na rua de casa e subi na caçamba de uma Kombi para distribuir balas à molecada. Eu seria uma espécie de duende, ou algo do tipo, mas sem a fantasia estúpida. Tudo o que eu teria que fazer era jogar balas pra cima e ver a molecada se estapear, o que — na minha idade — parecia bem divertido. No fim da tarde, pegamos uma picada em direção à zona rural e me encantei quando percebi que, no destino, havia um antigo porto fluvial, às margens de um vilarejo surgido em torno de uma estação de trem. Indiana Jones! Fiquei louco para saber o que havia na construção de madeira de onde, em um passado distante, barcos a vapor e trens partiam com cargas e pessoas. Nem tive tempo de espiar pelo buraquinho da fechadura. Ao me aproximar do barracão em ruínas, centenas de marimbondos entraram na minha camiseta e uma multidão de moradores do bairro correu em minha direção, tentando acudir. Eles cuspiram, jogaram cachaça, urina, terra, merda de vaca e Merthiolate. Entrei, novamente, na injeção. Desta vez, um antialérgico. E a minha vida, dali em diante, seria correr para o final da fila quando o pessoal do posto de saúde chegasse à escola com alguma vacina em forma de seringa. Meu trauma por agulhas só foi superado quando soube que um laboratório havia descoberto a cura para o Coronga. Eu tinha esperança de que a vacina viesse em um delicioso tablete mastigável sabor morango, mas fiquei contente em saber que ela demonstrava eficácia, mesmo que em formato de ampola.

Apesar de avesso a injeções e agulhas, por inclinações culinárias, sempre fui apaixonado por remédios. Entornava Biotônico Fontoura, comia cartelinhas de Melhoral infantil, degustava xaropes coloridos e me esbaldava com pastilhas Valda e Mastiguinhas. Minha mãe não tinha conta na bomboniere, mas deixava uma caderneta na farmácia e se esqueceu de dizer aos atendentes para não me darem crédito. Eu me deliciava com uma porção de remédios mas, muitos deles, serviam de base para as minhas experiências. Para preparar o “peido alemão”, em fórmula clássica, dissolvia Metiocolin na água e mergulhava um barbante naquela solução fedorenta. Levava aquilo para a escola, esperava a hora do intervalo e botava fogo no rastilho, o que fazia exalar um odor medonho. Também comprava Lactopurga para misturar à amônia dos produtos de limpeza e produzir “sangue do diabo”. Eu esvaziava o tubo de Moderato do meu pai, enchia com aquela mistura e tingia a roupa da molecada de vermelho. Como a amônia evapora rápido, o que era base voltava ao neutro e a tinta desaparecia. Eu nunca fui bom em química, mas era louco por essas reações. Já estava de olho em um mini laboratório, há muito tempo. Tive a chance de comprar um daqueles kits, quando apareceu uma filmagem de casamento para o meu pai fazer, ele estava ocupado e me mandou no seu lugar. Eu só tinha uns doze anos e, logicamente, a gravação ficou uma bosta. Ele nem queria cobrar pelo serviço, mas o noivo ficou com dó e me deu alguns trocados. Foi a conta para eu ir à loja de brinquedos e realizar o sonho de virar pesquisador. Montei um laboratório em cima de um estrelão, consegui comprar outro kit e estava curtindo as experiências, até que o meu irmão bateu com o velocípede na bancada e quebrou os tubos de ensaio, cadinhos e soluções coloridas. Sempre quis saber como as coisas funcionavam e, para isso, valia ler o “Almanaque do Pensamento” ou os livretos de ciências da escola. Uma enciclopédia custava o olho da cara e, quando pedia para a minha mãe comprar de uma marca mais simples, ela dizia: “Enciclopédia tem que ser Barsa!” O fato é que nunca tivemos nem uma e nem outra e eu sempre pegava os fascículos com o meu tio. Ele também me emprestava o microscópio para ver casquinhas de cebola ou gotinhas de leite. Chamava aquelas brincadeiras de “Experiência ou morte” e sempre misturava os produtos de limpeza ou tentava produzir raio laser com uma fórmula descrita no livro de ciências do Mazzaropi. Quando disseram que o Cometa Halley passaria próximo à Terra, virei as madrugadas olhando para o céu, na tentativa de encontrar aquele pontinho minúsculo com uma cauda cotoca. Até cheguei a xerocar um mapinha que apontava a direção do astro no céu, mas não vi nada. O tempo estava sempre nublado e o bicho era pequeno demais. No dia em que soube que um tal de eclipse solar iria acontecer, fiquei eufórico. Vi na TV que era só fazer uns oclinhos com negativos de fotografias e montei a engenhoca como aprendi no noticiário. O sol ficaria escondido pela lua, no domingo de manhã. Eu veria despontar o astro por detrás de uma montanha e o dia seria transformado em noite. Despertador programado para tocar às sete, óculos montados, estava tudo certo. Eu acordei, penteei os cabelos e corri para a rua. Olhei em direção à montanha, avistei o sol, mas ele parecia estranho. Efeito do eclipse? Dava a impressão de que era feito de papel laminado. Ao longe, um som tocava no rádio. E o Martinho da Vila despontou como um gigante por detrás da inclinação. Cantava “Pagode da saideira”, enquanto fazia uma dancinha esquisita. “Não é possível! Eu ainda estou dormindo!” Tentei acordar de tudo que foi jeito mas não consegui. Pulei da cama depois de algum tempo, botei os oclinhos de proteção, mas já era tarde. Um sambinha ainda tocava no aparelho de som da sala de visitas e perdi o espetáculo que seria comentado pela escola inteira, na manhã seguinte

(Este texto foi extraído da obra “Quarentena aos Quarenta”, de autoria de Carlos Romero Carneiro. Foi lançado em 2024 pela editora Marmota Books.)

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